terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Alheio? O que é isso?

Aos leitores mais críticos: perdão pelos clichês, mas neste estado de espírito não sou bom em evitá-los.

É triste que tenha sido necessário um tema assim para voltar a postar neste blog, mas geralmente é isso mesmo que coisas lamentáveis evocam. Não tenho escolha.

E o tema lamentável de que falo — vamos direto ao ponto — é o esvaziamento da palavra “alheio”, presente de grego dos nossos dias. Seria até tragicômico, se tivesse graça, mas é uma torpe ironia que, no meio de tanta busca pelo individualismo, tanto se queira pôr os olhos (e, se possível, as mãos e até os outros membros do corpo) na vida dos vizinhos e também dos que moram mais longe.

Sim, para mim é lamentável que a vida alheia se torne mercadoria no horário nobre, que se compre a intimidade alheia, o tempo alheio, a opinião alheia; que se façam zoológicos de humanos com e sem câmeras, com e sem paredes; tudo para que os que se dizem ocupados demais com as próprias vidas para se ocuparem com a dos mais próximos possam — contrassenso! — ocupar-se com a vida de completos estranhos.

Contrassenso que me retine nos ouvidos quando vejo pessoas que se lamuriam dizendo que suas vidas são pesadas demais para elas mesmas, e ainda se ocupam em colocar por cima outras que sequer lhes dizem respeito. Chegam às vezes a saber mais do alheio que do próprio, mas ai de quem ousar apropriar-se do que é seu!

Para mim, tanta curiosidade pelo alheio chega a parecer mórbida; degradante, ver olhos ávidos de encontrar nos completos estranhos os defeitos que abominam admitir em si mesmos — talvez como uma forma primitiva de justificarem-se; deprimente, observar uma carência tal que leve homens e mulheres a se sujeitarem alegremente ao comércio do que deveria ser só seu para que tenham cinco minutos de atenção.

Valores? Para quê? Não, não, valores complicam tudo, são retrógrados! Viva a libertinagem!, tão mais desejável que chegou a ganhar o apelido de “liberdade”. O importante é gozar o momento, por instantâneo e vazio que seja, a qualquer preço. Uma pessoa quer vender a si mesma, seja no corpo, na imagem ou na consciência? Que venda — a vida é dela! —, porque haverá quem compre, ou roube.

Conseguimos tirar um pouco da poeira, do sangue e das jubas, mas o pão e o circo continuam os mesmos.

3 comentário(s):

Narlla Sales disse...

É (...), caro Pedro... É mto mais legal observar o outro do que cuidar da própria vida. Enquanto isso, o Brasil vai se emburrecendo e embecilizando diante da tela...
Esperança! Podemos fazer diferente.
Abraço
ps: Gostei do texto.
Shalom

cy83|250v137 disse...

uoou...
relaxa aí, meu velho.
Pão é circo é pra uns mas não pra todos. Sua sorte é poder escolher não comer. ;)

Abel Chiaro disse...

@cy83|250v137: sim, tenho essa sorte, mas isso não torna o pão e o circo mais bonitos... :(

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