quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Idharos — III
 – Dificuldade e Solução – 

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O primeiro clarear do dia ainda não havia aparecido no céu sobre as Montanhas Majestosas quando a porta de uma casa abriu-se e dela saiu um homem, vestido com roupas simples de camponês. Quem o visse, decerto pensaria que ia pegar água no modesto poço de pedras que ficava no centro da praça — na praça em que acontecia, semanalmente, a feira dos produtos vindos de fora.

Era um homem jovem, de menos de trinta anos — ou, como os habitantes do vale diziam, que vira menos de sessenta recomeços. Sempre era o primeiro a levantar-se, e o último a ir-se deitar; fazia-o com o fim de melhor zelar pelo vale. Não apenas porque o houvessem escolhido para tal função, mas principalmente porque sentia-se no dever de fazê-lo, e fazê-lo sempre. Era tido em alta conta por todos os de seu povo.

Naquele dia, havia-se levantado um pouco mais cedo que de costume; mas, em vez de dirigir-se à praça, como se esperaria, tomou o rumo oposto e seguiu a avenida de pedras em direção ao palácio. Andando devagar, virou à esquerda duas ruas antes, e depois à direita, e seguiu rumo ao sul. Contornou a última casa, passou o pomar, e continuou andando rapidamente até chegar aos primeiros rochedos. Galgou com agilidade as pedras do lado meridional do vale, o das montanhas mais altas e mais frias, e veio andando devagar em minha direção. Não acenou quando me viu — primeiro porque eu ainda lhe era uma estranha, segundo porque o aceno para um El’las tinha um significado especial que ainda me ensinariam.

“Alegra-me ver que confiaste em mim, senhor”, disse eu; “ansiei por este nosso segundo encontro, e garanto-te que não te arrependerás da proposta que tenho a fazer.”

Ele sorriu. Felizmente, estava menos arredio que na véspera. “És sempre assim tão apressada ao falar com as pessoas, ou estavas preocupada com a possibilidade de eu nem sequer querer ouvir-te?”

Sorri-lhe de volta, e respondi: “É bom ver que estás mais alegre hoje! Perdão se pareci pouco educada. Assim, para começar melhor: brilhe a luz sobre ti!”, disse eu, erguendo a mão esquerda.

“Brilhe a luz sobre ti, também… E ainda não sei teu nome.”

Não lhe respondi imediatamente, mas ele não notou. “Então chama-me Aræn, simplesmente. O lugar de onde venho não importa muito, não agora.”

“Ontem querias tanto falar, e hoje tens segredos… mas pelo menos disseste-me teu nome.” Sorriu. “Mas não viemos discutir essas coisas aqui, suponho. De qualquer forma, brilhe a luz sobre ti também, ó senhora Aræn!” Pigarreou e olhou para o meu manto. “Espero que não te importes se te trato assim.”

“Não te incomodes com coisas tão pequenas. Trata-me com os termos que considerares respeitosos e justos no trato com uma estranha que aparece em circunstâncias ainda mais estranhas aos teus olhos, e os tomarei eu mesma como respeitosos. Mas, como tu mesmo lembraste, não foi para isso que viemos ambos aqui.”

“Muito bem. Vamos logo ao assunto, então. Ontem, disseste-me que vieras de longe especificamente para ajudar-me, e deste a entender que sabias exatamente o que fazer para chegar a esse intento. Então perguntei-me: como poderia ela saber que problemas tenho, e mais, como poderia uma estranha saber como resolvê-los, se nem me conhece, e nem à minha realidade?”

“São dúvidas pertinentes, senhor. Mas reafirmo ser verdade o que eu disse ontem e tu repetiste agora, de forma que não precisas ouvi-lo outra vez. Conheço a causa de tua angústia, e sei que ela leva a uma certa dificuldade, cuja solução já chegou a visitar tua casa mas que tu rejeitaste de imediato para não mais pensar nela. Entretanto, não posso ajudar-te sem antes saber teu nome.”

“E por que não?”

“Ora, como eu poderia bem ajudar alguém que não se dá a conhecer a quem o ajuda? Crê e confia nas minhas palavras: não se trata de uma encenação.”

Ele hesitou novamente, mas respondeu mais rápido que na véspera. “Chama-me… Kalaras, por favor. Será o suficiente, por enquanto.”

“Entendo. De tua hesitação posso pensar que uma das duas seguintes coisas seja verdade: ou deste-me um falso nome, ou deste-me teu nome verdadeiro. Considerando a segunda hipótese, posso supor que tens ainda dificuldade em acreditar no que te disse ontem e reafirmei hoje, mas te esforças para isso; mas, se considerar a primeira, pensarei que vieste aqui apenas para ouvir o que tenho a dizer — afinal, nunca foi prejudicial ouvir mais um conselho —, mas que não pretendes, de imediato, chegar a pôr em prática o que vim aconselhar-te a fazer.”

“Tu te esqueceste de duas coisas apenas: se consideras essa primeira hipótese, ofendes-me por chamares-me mentiroso. E, se consideras a segunda e te admiras de minha hesitação, ofendes-me também, por julgar-me irresponsável a ponto de confiar cegamente no conselho de uma pessoa desconhecida.”

Ele era perspicaz, embora não o suficiente para ver que a única solução era a que ele mais veementemente rejeitara; nisso, entretanto, apenas um pequeno estímulo seria suficiente — muito embora uma grande motivação estivesse a caminho.

“Então, para que não haja mais ofensas, talvez deva chamar-te pelo teu nome verdadeiro; assim, não te considerarei diverso do que és, nem tu desconfiarás das palavras que, insisto, afirmei verdadeiras. Assim, talvez seja melhor que eu te chame, de ora em diante, Rei Kal’læ da Cidade Solitária do Reino de El’las, situado no vale de Mezelis.” Ele olhou-me estarrecido. Continuei: “Saúdo-vos, ó rei, e venho oferecer-te a minha ajuda como conselheira nesta difícil situação que tens diante de ti e do teu povo.”

Ele ainda não podia falar. Olhava-me e movia os lábios, mas as palavras não saíam de sua boca.

“O que foi? Bom, já que já sei quem és, penso que podes tirar tua barba e teu cabelo falsos, e também esse chapéu e a capa”, disse eu.

“Como…?”

“Não te apresses em saber o que não precisa ser sabido agora, ó rei Kal’læ. Aqui vieste em busca da solução do teu problema, não de um outro, irrelevante, que conheceste somente agora. Asseguro-te que, tão logo chegue o dia em que for importante saber as respostas das questões que fazes a ti mesmo agora, tas darei.”

“Muito bem, Aræn, que agora suponho não ser apenas Aræn: se sabes que sou rei, deves compreender o porquê de minha preocupação em aceitar qualquer ajuda”, disse ele, enfatizando a palavra “qualquer” e erguendo as duas mãos como quem pede calma. “Não me entendas mal; a mim foi confiada a responsabilidade por este povo, e não posso colocá-lo em risco em um ato precipitado.”

“Entender-te mal? Pelo contrário! É justamente por isso que considero louvável o teu julgamento; na verdade, esperava mesmo que tu relutasses em confiar em mim: é o comportamento a se esperar de um rei de verdade. Por isso, antes que perguntes, dou-te a prova de confiança que estás prestes a exigir.”

“Se for tão precisa quanto a tua capacidade de antecipar-te às minhas perguntas, confiarei sem perguntar outra vez. Mas, que prova de confiança seria essa?”

“Não faças promessas sem saber se poderás cumpri-las, rei Kal’læ”, disse eu, sorrindo. “Minha prova é a seguinte: se te disser exatamente qual é o teu problema, aceitarás minha ajuda?”

“Como saberei se não o ouviste de uma caravana qualquer?”

“Essa possibilidade não existe, pois não revelarias tal problema a ninguém, a menos que fosse inevitável; até agora, não foi.”

Surpreso outra vez, pôde apenas gesticular para indicar-me que continuasse.

“Então: há muito viste algo que teu povo, por algum motivo, ainda não viu e talvez não veja até que seja tarde demais; por isso, desejas encontrar uma solução sem demora, para que teu povo não chegue a sofrer. Até aqui, estou certa?” Ele assentiu e eu continuei: “Enfim, como teu pai disse a ti, tendo-o ouvido de mim, Mezelis em breve não mais será o lar acolhedor que sempre foi, e o povo há de sofrer como nunca se teve notícia, a menos que algo seja feito, e daí surge a tua angústia, porque a única solução que entreviste não te é agradável em absoluto. Mas te digo que o grande problema, na verdade, é outro.”

“E qual seria?”

“Com efeito, a solução é evidente e, por isso, o problema real não é exatamente o tamanho do vale; é, na verdade, o medo que tens de aplicar a única solução possível.”

“Muito bem, Aræn, acredito em ti. Não revelei nada a ninguém para não assustar o povo, mas, de fato, eu calculava que, dentro de doze ou quatorze recomeços, a situação tornar-se-ia crítica. Que solução tu propões? Não me digas que te referes àquela que ‘rejeitei de imediato para nela não mais pensar’?”

“Ah, tu te lembraste. Sabes de que solução falo, então. Mas não to diria apenas se não fosse verdade; por isso o confirmo.”

“Se estás tentando sugerir que o melhor a fazer é tirar meu povo daqui e levá-lo para outro lugar, é melhor que esqueças. Não há terras desabitadas e habitáveis nesta região dentro do espaço de algumas dezenas de horizontes, e nada nos garante que as encontraremos aquém ou além de qualquer distância próxima disso. Além disso, tal viagem seria arriscada demais; se pudéssemos levar apenas adultos com saúde, talvez encetássemos essa jornada; mas isso não faria sentido, e haveríamos de levar também crianças e anciãos, e pessoas doentes de todas as idades, e mulheres prontas para dar a luz, ou pelo menos bem próximas disso. Eu não separaria famílias, e tampouco deixaria gente para trás; não deixaria ninguém para trás.”

“É, de fato, arriscado, mas o único meio necessário. Contra esse inimigo não podes resistir, isto garanto.”

Ele fechou o cenho. “E é claro que o sei!” Seu grito ecoou fracamente, e ele baixou novamente a voz. “Tens razão em dizer que necessitamos de uma solução urgente, mas isso não pode levar-nos a precipitações. A própria descida da cadeia de Mezelis pode provocar fatalidades nas quais não ouso pensar; que direi acerca do que encontraríamos depois?”

Respirei, para que a pausa desse a ênfase necessária às minhas palavras. “Disse-te que teu medo era a maior dificuldade, e pelas tuas palavras o aponto: que perigo há em descer a encosta externa de Mezelis, se é a única rota de acesso ao vale e é justamente a usada por todas as caravanas que visitam El’las, que por ali sobem e descem? Protege convenientemente o teu povo, e não haverá por que temer nenhuma eventualidade.”

“Sim, mas, e depois? Para onde iremos? Se seguirmos para o norte, quem nos dirá que o lugar onde habitaremos fica ao sul? Se seguirmos para o sul, quem nos dirá que o caminho certo é na direção oeste? E quem nos garantirá que suportaremos o tempo necessário para chegar lá? E quanto tempo será?”

“Ah, pequeno homem…”, disse eu, e ele me olhou com estranheza. Continuei: “Repito: não te apresses em saber o que não precisa ser sabido agora; na verdade, digo mais: não queiras conhecer o que não cabe a ti conhecer. Acaso já conheces o restante de teus dias? Não obstante, acordas todos os dias para desempenhar tua função.” Fiz novamente uma pequena pausa, a fim de que minhas palavras fizessem o devido efeito, e continuei: “Da mesma forma, se vais a algum lugar, seja qual for, não podes afirmar com certeza quanto tempo levarás para chegar; não sabes o que te pode acontecer no caminho, e…”

“É exatamente o que quero dizer! Não tenho a menor noção do que nos aguarda lá fora. Não posso arriscar meu povo à incerteza.”

“Mesmo que a alternativa a essa incerteza seja a certeza de uma existência sofrida?”

Kal’læ calou-se. Seus argumentos acabavam aqui, ou pelo menos ele não mais encontrava razão para ater-se a eles. Chegara à conclusão, como eu esperava, de que realmente não haveria alternativa para seu povo, se quisesse cumprir seus freqüentes votos de “sede felizes por completo e sem cessar”.

“Muito bem, Aræn”, disse ele, “conseguiste, se tal era possível, aumentar ainda mais a minha preocupação. Assim, pergunto-te: que espécie de ajuda tens a oferecer?”

“Antes de responder-te, termino finalmente de apresentar-me: como já disse, deram-me muitos nomes nos lugares por onde andei; mas, nesta região, chamam-me Sábia Aræn. Vim de muito longe para ajudar o povo El’las a encontrar a terra que os poderá acolher em definitivo. Por isso procurei o rei de El’las, para oferecer meus serviços como conselheira real. Em minhas viagens vi muitas coisas que te serão úteis nesta tua.”

“Escuta e vê se compreendes minha situação: se nem mesmo ao meu Conselho revelei minhas apreensões, como reagiriam se soubessem que aceitei seguir o conselho de alguém estranho ao reino?”

“Os teus Mestres de Tradição já me conhecem, rei Kal’læ; e, antes que perguntes, cumpre ressaltar que não foram eles que me falaram de teu problema; na verdade, vim pela última vez a Mezelis há mais de cem recomeços, e fui eu quem revelou ao rei El’læ e ao Conselho tudo que há de suceder a esta terra.” Faltava ainda uma só coisa a dizer. “Por isso, esperei que chegasse o tempo oportuno e vim ajudar-te.”

“Mas, então, queres dizer-me que podes…!” E levou a mão à boca aberta, abrindo ainda mais os olhos, sem conseguir concluir a frase.

“Exatamente. Por isso ofereço-me para ser tua conselheira e, assim, não farei mais que minha função se ajudar-te a levar teu povo em segurança para seu lar definitivo. Não digo que plantarei certezas em teu jardim, mas uma semente posso dar-te: teu lar definitivo existe. Quanto a chegares lá, isso dependerá de quanto o desejares.”

E o brilho de seu olhar então mudou.

Kal’læ ergueu com firmeza sua mão esquerda, e um brilho de confiança apareceu-lhe nos olhos, pela primeira vez desde que o encontrei.

“Pois bem, Senhora Aræn, agora então tomo a vós como conselheira do reino de El’las!” Parou, baixou a mão e sorriu estranhamente, constrangido pelo próprio entusiasmo repentino. Pigarreou e continuou, mais moderadamente: “Confio a vós, ó Sábia Aræn, o julgamento de minhas decisões. Aconselhar-me-ei convosco em tudo o que fizer de hoje em diante, para que minha inexperiência não ponha meu reinado em dificuldade. E empreendamos juntos essa viagem! Se, como dissestes, é assim que deve ser, tende a certeza de ver-me fazendo o possível para que assim aconteça.”

continua

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