quarta-feira, 4 de outubro de 2006

“Quidquid latine dictum sit, altum videtur.”

Eis a justificativa do blog (ou deveria dizer “diário na internet”?), isto é, aproveitar-me das palavras para falar pelos cotovelos — ou pelos dedos, com o perdão do trocadilho desgastado e infame —, com a (talvez muito) ingênua esperança (ou pretensão) de dizer algo (aproveitável) aos (eventuais, ou improváveis?) leitores.

Sobre o que pretendo falar? Então: sempre me fascinaram a capacidade comunicativa do ser humano e, em particular, as diferentes línguas criadas ao longo do tempo para dar-lhe vazão e suprir-lhe a necessidade; e nunca deixei de olhar com curiosidade para como as idéias ganham conotações às vezes inesperadas apenas por mudarmos as seqüências de letras que as expressam, ao traduzirmos sentenças de uma para outra língua.

(Aliás, é interessante como a palavra “pretensão” ganhou uma conotação pejorativa, ao passo que seu verbo, “pretender”, seguiu inocente como sempre foi… — bom, pelo menos para mim é interessante.)

O que nos traz de volta ao título deste post — postagem?! — inaugural: “Quidquid latine dictum sit, altum videtur”. Para os que ainda não conheciam a piada, a frase, apesar de toda a sabedoria que aparenta encerrar por estar escrita em latim, não significa nada mais que “qualquer coisa dita em latim parece profunda”. Aliás, um exemplo intenso — digamos — do fenômeno foi dado pelo personagem Merovíngio no filme Matrix: Reloaded (os que fizerem questão de saber o que ele disse, façam por onde — eu não direi): “Eu amo o francês… especialmente para xingar: Nom de Dieu de putain de bordel de merde de saloperies de connards d'enculés de ta mère! Vêem? É como limpar a bunda com seda; eu adoro!”

(Que fique reforçado que não endosso a frase em francês: ela só está aqui como exemplo.)

Tudo isso afora as particularidades de cada língua, que, numas, permitem dizer coisas que, noutras, não é possível dizer, ou que não se pode expressar com a mesma elegância. Como diria Fernando Pessoa, no poema
[Algumas] Quadras ao gosto popular”:

“Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem.
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.”
Ou um exemplo clássico — infelizmente, não tão clássico para a maioria:
15 “Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?’ Respondeu ele: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta os meus cordeiros.’ 16 Perguntou-lhe outra vez: ‘Simão, filho de João, amas-me?’ Respondeu-lhe: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta os meus cordeiros.’ 17 Perguntou-lhe pela terceira vez: ‘Simão, filho de João, amas-me?’ Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: Amas-me?’, e respondeu-lhe: ‘Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta as minhas ovelhas.’” (Jo 21, 15ss)
Todavia, ao longo das inúmeras traduções por que passou o texto até chegar à nossa língua, perdeu-se um aspecto importante que se nota no grego:

15 Ότε ουν ηρίστησαν λέγει τω Σίμωνι Πέτρω ο Ιησούς· ‘Σϊμων Ιωνά, αγαπάς Με πλείον τούτων;’ Λέγει αυτώ, ‘ναι, Κύριε, Συ οίδας ότι φιλώ Σε.’ Λέγει Αυτώ, ‘βόσκε τα αρνία Μου.’ 16 Λέγει Αυτώ πάλιν δεύτερον· ‘Σίμων Ιωνά, αγαπάς Με;’ Λέγει αυτώ· ‘ναι, Κύριε, Συ οίδας ότι φιλώ Σε.’ Λέγει Αυτώ· ‘ποίμαινε τα πρόβατά Μου.’ 17 Λέγει Αυτώ το τρίτον· ‘Σίμων Ιωνά, φιλείς Με;’ Ελυπήθη ο Πέτρος ότι είπεν Αυτώ το τρίτον φιλείς Με;’, και είπεν αυτώ· ‘Κύριε, Συ πάντα οίδας, Συ γινώσκεις ότι φιλώ Σε.’ Λέγει αυτώ ο Ιησούς· ‘βόσκε τα πρόβατά Μου.’” (Ιωάν. 21:15-17)

Em vermelho, as falas de Jesus, e, em negrito, os verbos que, em português, nos vieram apenas como “amas”, perdendo muito do sentido original: “αγαπάς” /a.gha.PAS/ é a segunda pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “αγαπάω” /a.gha.PA.o/, que se refere ao amor incondicional por excelência — o ágape, de “αγάπη” /a.GHA.pi/ —, ao passo que “φιλείς” /fi.LIS/ é a segunda pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “φιλώ” /fi.LO/, que se refere ao amor de amigo, tipicamente condicionado a determinados fatores. Daí tire o leitor suas conclusões…

Para terminar, gostaria de agradecer aos que tiveram a paciência de ler até aqui (embora eu talvez esteja sendo pretensioso em achar que posso pôr a frase no plural), e dizer que este não é um blog sobre lingüística, porque, muito embora tal idéia me agrade, não me considero possuidor de conhecimento suficiente para ousar manter um blog sobre o assunto. Mas já o tinha deixado implícito no primeiro parágrafo: a idéia é escrever palavras potencialmente (!) úteis, em ficção ou não, em prosa ou não, ou seja como parecer-me melhor, no intento de que sejam boas a outras pessoas além de mim. (Eu ia escrever “alguém”, mas a palavra não transmitiria a minha idéia… tenho inveja dos gregos, para os quais “alguém” varia em gênero e número…)

Muito bem, meus “rascunhares” estão finalmente inaugurados. Até!

4 comentário(s):

Narlla disse...

Oi Pedrão! Eu li até a última letrinha... Acredite! As palavras são realmente surpreendentes. Palavrear, palavrificar, palavrisionar, palavrigiar, palavrarascunhar... Que Deus abençoe você sempre, sempre, sempre!!! E que, acima de tud, vc acolha essa bênção.
Um beijo, estou ansiosa pelos próximos rascunhares.
A&S

Lílian disse...

Oi, td bem???
Vc gosta de rock?
Se gostar, dê uma passadinha no meu blog e eleja as 10 melhores bandas. Aguardo sua visita, té +!

victor magno disse...

Olá amigo, sei que a postagem é bem antiga, mas de qualquer forma, parabéns pelo excelente texto. Muito interessante o questionamento de Jesus sobre o amor que Pedro sentia por ele, que a principio não entendeu que o deveria amar acima de todas as coisas e não apenas como amigo. Muito bom! Grande abraço.

kokbira disse...

muito interessante. +1 :)

Creative Commons License
Esta obra de Abel Chiaro está sob uma licença
Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil.