terça-feira, 17 de outubro de 2006

Idharos — II
 – O Primeiro Contato – 

« continuando

Notas:
  • Slovar é uma bebida agridoce de cor verde-clara, consumida fria, muito apreciada nos reinos conhecidos no continente de Nashelas, no sudeste do qual se situa o vale de Mezelis. Acredita-se que a bebida tenha leves propriedades calmantes.
  • Aslovar é a árvore de cujas folhas se extrai o slovar.

O sol se punha quando entrei na cidade. Devido à posição das Montanhas Majestosas, já escurecera bastante, e um céu arroxeado estendia-se sobre o vale. Os lampiões, colocados no alto de mastros distribuídos regularmente ao longo de todas as ruas, terminavam de ser acesos. O último foi o que estava mais próximo de mim, à minha direita. Cumprimentei o homem que o acendera, com a mesma saudação com que saudara os guardas da entrada.

“Brilhe sobre ti também a luz!”, respondeu ele. Seu olhar revelava curiosidade; devia ter ele perto de sessenta anos, ou, como se dizia em El’las, algo em torno de cento e vinte recomeços. Não se conteve e falou: “Perdoa-me a indiscrição, mas nunca te vi em nenhuma parte do reino… e isso posso afirmar, pois já há seis recomeços que sou eu quem acende cada um desses lampiões que vês e por isso conheço cada pessoa e cada detalhe deste reino! Não és daqui, se estou certo… e, se estou errado, acho que já começo a ficar esquecido…”

Sorri, diante do jeito divertido dele. “Estás certo em dizer que não sou daqui; de fato, venho de fora. Vim visitar tua terra, conhecer o vosso povo e o vosso rei. Mas, dize-me: qual é o teu nome?”

“As pessoas daqui chamam-me Fam’nas. E, se posso perguntar, qual o teu nome?”

“Ora, Fam’nas, por que tanta solenidade? É claro que te direi meu nome, ou pelo menos um deles. Nesta região, chamam-me Sábia Aræn.”

Os olhos dele demonstraram surpresa. “Se chegaste a ficar conhecida como sábia, então deves realmente sê-lo. As pessoas de fora parecem relutar em fazer elogios uns aos outros…”

Sorri outra vez. “Bem, se assim o dizes… Mas, mudando de assunto, decerto sabes onde encontro a pousada mais próxima; meus pés estão bastante cansados de minha longa viagem — andei muitos e muitos horizontes, e sinto-me exausta. Onde poderia eu hospedar-me, para melhor aproveitar minha estada aqui?”

Seus olhos brilharam. “É claro que sei: já disse que eu mesmo acendo todos os lampiões deste reino, há exatamente seis recomeços!” Ficou com um ar orgulhoso, e acrescentou: “Seis recomeços completados exatamente ontem, com toda a honra e sem nenhuma falha!”

“Sim, compreendo; meus sinceros parabéns.” Olhei-o nos olhos. “Mas, se te recordas de minha pergunta, não me respondeste onde encontro a pousada mais próxima… Lembras-te? Disse-te que preciso descansar…”

Seu rosto tomou agora uma feição preocupada. “Ah! Sim, lembro-me! Perdoa-me, senhora Sábia Aræn!” Apontou para a esquerda: “A Brisa de Leste fica duas ruas atrás destas casas. Perdão novamente se te fiz esperar… se desejares, posso acompanhar-te até lá; já acabei meu serviço por hoje, de qualquer forma.”

Agradeci-lhe e com ele segui até a pousada, observando as casas à minha volta. Como haviam mudado! Uma vez mais alegrei-me por aquele povo, admirando-lhe a rapidez com que foram capazes de prosperar. Passávamos em frente a uma grande casa de pedras marrons, com arcos sobre as janelas e as portas, e fitas coloridas que pendiam do telhado, quatro braças acima de nossas cabeças. Perguntei a Fam’nas o que significavam.

“Essas fitas querem dizer que alguém que viajou para muito longe voltou, depois de passar um longo tempo fora”, respondeu ele. “Mas não sei desde quando se faz isso aqui, pois não sou El’las de nascimento, na verdade: vim das Grandes Ilhas numa caravana mercante… há dez recomeços, apenas. Gostei tanto deste reino que resolvi ficar, e agora, quero dizer, há seis recomeços, sou o encarregado de acender os lampiões da cidade quando o sol começa a esconder-se no alto das Montanhas Majestosas… Ah!” Fez uma expressão de quem procura alguém em volta, e começou a falar mais baixo. “Não sei se já te disse, e peço-te que isso fique entre nós, mas muitas vezes já aconteceu de eu esquecer um ou dois lampiões perto de minha casa…”

Sem a intenção de acusá-lo, apontei-lhe a pequena mentira dita há pouco: “Perdão se assim te falo, mas há alguns minutos disseste-me que foram ‘seis recomeços com toda a honra e sem nenhuma falha’!”

Fam’nas pigarreou e demonstrou ter ouvido, mas nada disse. Dentro em pouco chegamos à Brisa de Leste e, quando paramos em frente à porta, ele despediu-se, dizendo: “Muito bem, senhora Sábia Aræn, cá estamos diante da Brisa de Leste. E lembra-te: sempre que de mim precisares, procura-me em minha casa; ela fica a sudeste do poço, de frente para ele. Sabes onde fica o poço?”

“Eu o vi antes de entrar na cidade, quando parei no cume das montanhas de Mezelis.” Ergui a mão esquerda: “Obrigada, e que a luz brilhe sobre ti!”

“Que a luz brilhe sobre ti, também! Bem-vinda ao vale de Mezelis!”

Acenei-lhe com a cabeça e entrei na pousada. Era uma grande edificação de sólidas paredes feitas de uma madeira castanho-avermelhada vinda da distante Álgia. Nas paredes à esquerda e à direita do curto corredor que dava para o vestíbulo de entrada, havia quadros verdes repletos de recados anotados em papel. Nas laterais, havia também dois bancos de madeira, baixos e longos, da mesma cor das paredes, destinados àqueles que fossem esperar hóspedes saírem ou visitantes chegarem.

Rapidamente cheguei ao vestíbulo de entrada, e dali à taverna, que tinha uma outra porta para o lado de trás da pousada. Ali, encontrei o homem a quem viera de longe procurar, e encontrei-o mais cedo do que esperava; não que contasse com uma longa busca num reino tão pequeno, ou com a possibilidade de não encontrá-lo em El’las, mas tampouco contava com a possibilidade de encontrá-lo no primeiro dia. Ele estava sentado numa mesa ao fundo, com uma caneca de slovar nas mãos; olhava-a concentrado, como se dentro dela estivesse a solução para todos os problemas do mundo. Usava uma surrada capa marrom, com um enorme capuz que quase lhe cobria o rosto mas deixava entrever sua expressão triste e bastante preocupada. Aproximei-me devagar; não sabia como ele iria reagir.

Ele não levantou a cabeça, nem deu qualquer sinal de ter-me visto. Fui então até o balcão e pedi para mim uma caneca de slovar, e voltei à mesa. Sentei-me à sua frente, mas ele ainda não se moveu; pude ver que ele pedira a caneca, mas não bebera um só gole. Bebi um, e decidi falar primeiro.

“Boa noite, senhor.”

Esperei até que ele me olhasse; pareceu voltar de um outro mundo e olhou-me com olhos vazios. Olhou-me ainda alguns instantes, interrogando-se quem eu era e o que estaria fazendo ali, antes de dirigir-me a palavra.

“Quem és tu, e o que queres de mim?” Não respondi; ele percebeu logo o quanto fora brusco e desculpou-se depressa. “Perdão, senhora; estou passando por uma época difícil com a qual não tenho sabido lidar. Não era minha intenção tratar-te mal, de forma alguma… não te conheço, não sei de onde vens, não sei a que vens, não tenho o direito de fazer-te pagar pelo que culpa tua não é.”

“Fica calmo, por favor, e não te incomodes comigo; não quero ser mais um problema para ti.” Eu também não esperava que ele falasse tanto logo no primeiro dia. Já desde o início, pude perceber que as coisas seriam mesmo rápidas, como eu previra.

“Agradeço por procurares compreender-me, mas insisto que nenhum problema meu é motivo grande o bastante para eu ter o direito de tratar mal a alguém. Como te chamas, para que eu te possa fazer meu pedido de perdão da maneira devida?”

“Como te responderei? Chamam-me por muitos nomes em todas as partes por onde andei.”

Essa resposta não o agradou.

“‘Chamam-te’? Está certo, não perguntarei. Mas perdoa-me, e que a luz brilhe sobre ti, senhora!” Ao dizer a saudação, ergueu a mão esquerda sem muito ânimo, e a exclamação não passou de uma afetação no fim da frase. Percebi-o, e ele percebeu que eu percebera. Baixou os olhos de volta para a caneca.

“Brilhe a luz sobre ti, também!” Ele pareceu surpreso ao ver-me saudá-lo da mesma forma. “Também não sei teu nome, senhor.”

Ele hesitou muito antes de responder; bebeu todo o slovar da caneca de um só gole, e ficou olhando para algum ponto dentro dela. Levantou os olhos para mim e, ao ver que eu o olhava, desviou-os logo de volta para a mesa, e permaneceu calado.

“É justo que também não me queiras revelar teu nome”, disse eu, “e sei que os motivos de tua angústia são muito mais importantes que uma estranha com palavras sem sentido. Não, não digas nada. Já pedi que não te incomodasses comigo. Vim oferecer-te a minha ajuda, toda a que eu puder dar.”

Novamente ele demorou a responder. “Perdão se pareço ríspido, mas, sinceramente, não vejo em que tu me possas ajudar. Ouve-me: agradeço por teu oferecimento, mas infelizmente não posso aceitá-lo. Meus problemas, em primeiro lugar, são meus e, depois, são grandes demais para que eu me sinta tranqüilo com a idéia de impô-los a outra pessoa, especialmente a uma que acabei de conhecer e que se me mostrou tão cortês.”

“Minha ajuda não exige que saibas como pretendo auxiliar-te, senhor. Quanto ao tamanho de teus problemas, suponho que todos tenham começo e fim, ou estaria eu errada?”

“Que queres tu dizer com isso? Começo todos eles têm, e sei onde e como começaram, e sei que hão de ter conseqüências, mais cedo ou mais tarde; mas não vejo nenhum porto a que me possa amarrar nesse mar de tempestade, e insisto que não vejo que meios tu poderias ter para ajudar-me a guiar meu barco para um lugar seguro.”

“Acaso oferecer-te-ia eu ajuda se não soubesse como ajudar-te?” Ele semicerrou os olhos e balançou a cabeça, descrente, e continuou olhando para a mesa. Continuei. “Não, não precisas dizer-me que sequer sabes quem sou nem que eu não teria como saber quais são os teus problemas; sei que acabaste de pensá-lo.” Olhou-me afirmativamente, com ligeiro desdém, e eu disse ainda, “Mas sei também que hesitarias em dizê-lo, posto que isto inevitavelmente levar-me-ia a perguntar quais são os teus problemas, e tu não mos quereria relatar. Estou certa? Não foi isto que pensaste agora?”

“Sim, foi, e de novo agradeço por me quereres compreender; mas escuta: de forma alguma quero que penses ser eu um homem rude que recusa toda ajuda que lhe é oferecida. Sinceramente agradeço por tua preocupação — ainda que me pareça muito estranho receber uma oferta de ajuda de alguém que, até onde me lembro, nunca vi nem nunca me viu —, mas não posso aceitá-la agora. Meu fardo é por demais pesado, e não me sentiria à vontade ao impô-lo a outra pessoa. Não. Isto não posso fazer.”

“Não te quero forçar a nada que não queiras fazer, senhor.” Ele olhou-me com viva estranheza. “Permite-me explicar-me. Vim para ajudar-te. Talvez penses que, na verdade, entrei aqui e, por ter-te visto e percebido tua preocupação, esteja eu tão somente escolhendo palavras bonitas para consolar-te, oferecendo-te ajuda. Mas não é assim.”

“Como é, então? Perdoa-me uma vez mais minha rispidez, mas esta conversa não me está ajudando em absoluto.” Levantou-se da mesa abruptamente, dizendo: “Tenho de ir agora. Volto para minha casa, onde deitar-me-ei e de olhos abertos esperarei e verei pela janela o dia começar outra vez. A luz brilhe sobre ti.”

Levantei-me também. “Por favor, não te vás agora.” Ele olhou-me interrogativamente. “Se queres que eu diga a que vim, dir-te-ei de uma vez. Como disse, não cheguei a esta taverna por acaso, nem vim oferecer-te ajuda com palavras escolhidas. Não. Vim de longe, de muito longe, especificamente para o Vale de Mezelis, cercado pelas Montanhas Majestosas, para o Reino de El’las, para ajudar-te. Eu, de fato, não esperava encontrar-te ainda hoje, mas, já que tal se deu, não quis esperar pela eventualidade de um segundo encontro; mesmo porque, como já me demonstraste, teus problemas necessitam de solução urgente. Eis o que aqui se passa, e asseguro-te que não há falsidade em nenhuma destas palavras.”

Finalmente eu ganhara sua atenção.

“Muito bem, senhora, conseguiste despertar minha curiosidade. Mas não quero nem posso falar-lhe agora, nem aqui. Preciso verdadeiramente deitar-me. Vi passarem as três últimas noites, e isso me deixou esgotado. Assim, se me permites, vou-me agora.”

“Compreendo perfeitamente teu estado. Mas, antes de te ires: onde e quando falaremos? Precisas urgentemente de ajuda e eu, de minha parte, quero muito ajudar-te. Ouso dizer até que ambos temos pressa nessa questão; por que adiá-la? Muito tempo já se passou e os problemas não se resolveram por si mesmos, nem se resolverão. Não estes.”

“Está certo, senhora. Encontra-me então amanhã, antes do nascer do sol, no extremo sul do vale; há ali um pomar de aslovar que pertence a um amigo meu. Atrás desse pomar, algumas braças mais ao sul, há alguns rochedos baixos no sopé do monte Idhar. Espera-me ali, e irei ao teu encontro. Então conversaremos. A luz brilhe sobre ti!”

Virou-se e saiu rapidamente, e não vi que rumo tomou. Respondi à despedida logo antes que ele ultrapassasse a porta, e ele apenas ergueu a mão esquerda, sem parar de andar nem olhar para trás.

continua

1 comentário(s):

Daniel. disse...

Bom. Difícil saber dosar as porções, se colocamos muito, ninguém lê, se colocamos pouco, nada dizemos ao todo...

Creative Commons License
Esta obra de Abel Chiaro está sob uma licença
Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil.