segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Idharos — I
 – O Reino de El’las – 

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A chegada da Sábia Senhora Aræn ao reino de El’las.

Mezelis era o nome do belíssimo vale cercado pelas Montanhas Majestosas, assim chamadas por estarem dispostas em forma de coroa, encabeçadas ao sul pelo altíssimo e sempre imponente monte Idhar. A cadeia de montanhas que dava nome ao vale ficava ao norte e, sendo estas mais baixas que as demais, permitiam o acesso de e para o mundo de fora. Todo o solo do vale era recoberto por grama sempre verde, vivamente verde, continuamente irrigada pela água que descia pelas montanhas, escorrendo desde as neves eternas lá em cima.

Em Mezelis vivia um povo determinado e trabalhador, cordial e acolhedor, e que tinha um aguçado senso de justiça. Assim eram desde que ali chegaram as primeiras famílias, vindas há muito tempo de um lugar cujo nome já fora esquecido. Foram elas que cavaram o velho poço que ficava no centro da vila e ergueram suas pedras que, anos e anos depois, ainda ali estariam, recobertas de limo por dentro e por fora.

No início, aquele povo morava em cabanas ao redor do poço, cabanas pequenas e cabanas grandes, e algumas poucas um pouco maiores. Estas eram as chamadas “escolas”; ali, os anciãos ensinavam às crianças as histórias antigas, e os adultos ensinavam aos jovens as artes de combate — que não eram exatamente apreciadas por aquele povo, mas encaradas como um mal infelizmente necessário. Havia ainda duas pequeninas fazendas com pequenos campos cultivados e rebanhos de ovelhas, e alguns cavalos.

A vila era freqüentemente visitada por numerosas caravanas vindas de todas as partes imagináveis do mundo, que sempre traziam inúmeros mercadores ansiosos por distribuir suas cargas e ávidos pelas moedas dos moradores locais. Moedas que, é sempre bom lembrar, só foram ali adotadas por questão de necessidade, e com a relutância dos anciãos; já havia algum tempo que as poucas plantações e os pequenos rebanhos não eram suficientes para alimentar a todos.

A cada chegada de uma nova caravana, o centro da vila ficava apinhado de gente perambulando de um lado para outro, negociando, conversando, discutindo, gesticulando. Dessas caravanas aquele povo tirou boa parte de sua cultura, aprendendo novos costumes, novas palavras e até mesmo novas letras. Todo esse novo conhecimento que não parava de chegar fez com que os anciãos tomassem a iniciativa de formar um conselho para recolher e manter registrada a história de seu povo, para que não fosse esquecida, e sua língua e suas letras, para que todos dali em diante pudessem aprendê-las e usá-las.

Ali havia um rapaz de quatorze anos, chamado Elaras, querido e respeitado por todos, atencioso, prestativo, cortês. Era de poucas palavras, mas era mesmo mais conhecido por seus atos; buscava sempre oferecer favores aos outros antes que lhos pedissem e, dentro dos limites de sua idade, procurava ajudar a todos em tudo. Ainda muito jovem começou a freqüentar as reuniões do conselho dos anciãos, e também ali foi acolhido com alegria.

Os anos foram-se sucedendo uns aos outros, e a vila cresceu. A cada caravana que chegava, duas ou três pessoas ficavam, incorporando-se àquele povo amigo e chamando-o seu; assim, enriquecia-se o vale continuamente, tanto em posses quanto em pessoas, e a vila prosperava mais e mais a cada ano. Crescia o povo de tal forma que a vila também precisou crescer — aos poucos, as cabanas foram dando lugar às casas, e os caminhos de terra batida foram devagar sendo substituídos por ruas pavimentadas de pedras brancas vindas das Grandes Ilhas. Os anciãos passaram a ser chamados Mestres de Tradição e criaram um Conselho permanente e regular que, além de cuidar da cultura de Mezelis, legislava sobre a vila agora tornada cidadezinha e cuidava do bem-estar do povo, deliberando sobre cada passo a ser dado para manter felizes todos os que ali viviam.

Elaras também cresceu, e agora era um homem respeitado por todos, e já era mesmo considerado um exemplo por algumas das zelosas mães que ali moravam. Quando o viam passando e tinham seus filhos junto a si, apontavam-no e diziam: “quando crescerem, meus rebentos, sejam como aquele homem, pois o que ele faz torna as pessoas felizes e é isso que o alegra”.

Elaras não cresceu apenas em idade, estatura, bondade e fama; após semanas de muita insistência por parte de todo o povo, aceitou ser nomeado chefe do Conselho dos Mestres de Tradição, mesmo sendo relativamente jovem para tal cargo — fato que, aliás, foi um dos argumentos que Elaras mais repetiu e que mais foi ignorado pelo povo.

A cidade continuava a crescer, e mais e mais casas iam salpicando o vale de Mezelis. Veio enfim o tempo em que, tendo a cidade ocupado quase toda a extensão do vale, de norte a sul e de leste a oeste, e tendo a população passado há muito tempo os milhares de pessoas, o Conselho dos Mestres de Tradição declarou a cidade elevada à categoria de reino; também um exército organizado já começava a consolidar-se, e a inevitável hierarquização dos postos já começava a ser delineada. E, como não poderia deixar de ser, após muita insistência do povo e uma reunião longuíssima com todo o Conselho — reunião que, de fato, durou vários e vários dias —, Elaras foi coroado rei, com o nome de El’læ, o Primeiro Rei.

Pouco restava da pequena vila que ali havia outrora. A maior das escolas, situada no extremo sul do vale, quase tocando o sopé das Montanhas Majestosas, foi transformada e decorada para merecer o nome de Palácio de Mezelis e ser considerada digna de abrigar um rei. Do palácio ao extremo norte agora estendia-se uma longa e larga rua de pedras brancas, tendo, na metade de seu comprimento e exatamente no centro, o velho poço. Ali era a praça central da cidade, deixada como memorial da antiga vila, e onde continuaram sendo armadas as freqüentes feiras dos mercadores das caravanas.

Passaram-se os anos, e El’læ envelheceu. Seu jovem reino cresceu com ele, e o cordial povo Mezelas, como eles chamavam a si mesmos, crescia em felicidade e em prosperidade; seu rei, por sua vez, crescia sempre na admiração do povo — todos o aprovavam, todos o tinham como exemplo, todos o obedeciam felizes e o obedeceriam em qualquer coisa. Era considerado um rei perfeito pelos seus súditos — “na medida em que um homem pode ser considerado perfeito”, como eles mesmos diziam —, mas, como todo homem, não duraria para sempre. Veio, pois, o dia em que El’læ sentiu estar próximo o momento em que deveria juntar-se a seus pais, idos já havia muito tempo.

Tinha El’læ um filho, Kalaras, um jovem que contava então dezoito anos, filho único, que deveria suceder-lhe no trono. Sentindo aproximarem-se os últimos instantes de sua vida, o rei chamou o príncipe a seus aposentos; nos seus derradeiros dias, já velho e cansado, passava boa parte do dia ali, em seu quarto, pois já não mais podia andar como antes.

“Kalaras, meu filho, chamei-te à minha presença para tratar de um assunto importante. Há muito eu o adiava, por julgar ser precipitação; mas eis que agora urge que dele te fale, posto que, a qualquer momento, pode ser tarde demais para que eu me decida a fazê-lo. Ouve, pois, e presta atenção ao que te direi; disso dependerá tua vida de ora em diante, disso dependerá teu futuro reinado sobre Mezelis.”

O semblante de Kalaras tornou-se preocupado. “Por que falas assim, meu pai? Sei que estás já velho, mas ainda tens saúde; não é porque já não podes fazer tudo que fazias no passado que deves já pensar nessas coisas. ‘Não há por que querer apressar a chegada de visitantes que não queremos ver’; sempre me disseste isso, lembras-te?”

“Aprecio a tua preocupação e o teu otimismo, meu filho, mas então aprende também isto: é grandíssima imprudência ignorar as coisas que estão na iminência de acontecer apenas porque desgostamos de seu aspecto ou de suas conseqüências. Ouve bem: aquele que ignora seu futuro por ter medo de pensar nele, pelo seu futuro será surpreendido e nele pode perder-se.”

Kalaras fechou os olhos e baixou a cabeça, como sempre fazia quando via que seu pai tinha razão e ele não — o que acontecia quase sempre. “Se assim dizes, meu pai, para mim assim é. Mas dize-me, então: o que é assim tão urgente que me fales?”

“Pois bem, Kalaras, eis que se aproxima o tempo em que deverás ser coroado rei em meu lugar, e o povo de Mezelis será confiado às tuas mãos. Mas não temas por esse dia: ele virá no tempo oportuno, posto que já te preparaste bastante para ele, e daqui até lá terás tempo para preparar-te ainda um pouco mais. Mas o problema é outro, meu filho, e ainda mais grave — se eu puder chamar tua coroação de ‘problema grave’”, disse ele, sorrindo com o último comentário. Kalaras também sorriu, e El’læ continuou o assunto. Dali a algumas horas, Kalaras saiu do quarto de seu pai, cabisbaixo e pensativo. Quem assim o visse prontamente lhe perguntaria o que acontecera: Kalaras era conhecido em todo o reino por sua viva alegria e por seu permanente sorriso; poucas, aliás, raras vezes fora visto com um ar de quem não tem motivos para sorrir apesar de tudo.

Passaram-se mais alguns meses, e o tempo de El’læ chegou. Numa fria manhã de céu nublado, chamou outra vez o filho a seu quarto, e disse-lhe: “Kalaras, filho meu, chegou o meu momento. Vou seguir meus pais na viagem que não tem volta, e então eis que chega o teu momento de suceder-me; quero que te lembres do que conversamos há algum tempo, e te digo agora uma palavra apenas, a que hoje penso ser a mais necessária para ti: coragem! Tens um povo leal e um Conselho sempre pronto a ajudar-te — não há, pois, por que te preocupares em demasia com as dificuldades.” El’læ tossiu duas vezes, e continuou: “É chegada a hora. Chama depressa os Mestres de Tradição, preciso falar-lhes!”

Kalaras saiu depressa do quarto e caminhava a passos rápidos; não sabia o que pensar. Dali a momentos, sabia e não adiantava tentar enganar-se, seu pai não mais estaria com ele. A coroa nem lhe passava pela cabeça, pois naquele momento não tinha a menor importância. Chegou ofegante ao salão, onde os Mestres estavam reunidos, e abriu a porta sem bater. “Perdão se sou inoportuno”, disse ele, “mas o rei El’læ deseja falar-lhes e diz ter urgência!”

“Sim, jovem príncipe Kalaras”, disse um deles, sem importar-se com o tratamento usado pelo rapaz. “Estávamos aqui tratando disso, e esperando por este momento. Vamo-nos, pois, ao encontro do nosso rei.”

O príncipe achou estranhas as palavras do ancião, mas o pensamento logo deixou sua mente. Dali a instantes estavam todos no quarto do rei El’læ.

Tão logo chegaram, El’læ disse: “Eis que aqui me despeço de ti, filho meu, e de vós, fiéis amigos meus do Conselho.”

Dirigindo-se ao filho, pediu-lhe que se ajoelhasse junto à cama, e pousou a mão esquerda sobre a sua cabeça, dizendo: “Kalaras, dou-te agora um novo nome: Kal’læ, o Segundo Rei de Mezelis.” Lágrimas rolaram dos olhos de ambos, e El’læ continuou, “Nas tuas mãos entrego o meu povo, e te desejo todas as boas venturas deste mundo; que teu reinado seja ainda mais feliz para ti que este meu foi para mim, e que a honra e a justiça sejam tuas companheiras fiéis, sempre e em cada um de teus passos.”

Após uma breve pausa, levantou os olhos para os anciãos, e disse: “A vós, Mestres de Tradição, confio o conselho do Segundo Rei de Mezelis, e peço-vos que o auxiliem sempre em seu caminho. Tenho a certeza de que, daqui em diante, o reino será ainda melhor, melhor a cada dia.” Silenciou por um momento, e continuou, sorrindo: “Digo-vos que foi muito bom ter-vos ao meu lado todo esse tempo. Vou-me feliz, por ter vivido entre amigos tão fiéis, e uma vez mais desejo-vos felicidade sem limites.” Após mais uma pausa, disse ao filho: “Rei Kal’læ, quero segurar a mão do meu filho uma última vez antes de partir.”

Kal’læ inclinou-se e tomou a mão do pai. “Que descanses em paz, meu pai. Obrigado por tudo que por todos nós fizeste; e, antes de ires, fica com a certeza de que deixarás saudades.”

El’læ olhou para os anciãos. “Sede felizes, amigos meus. Obrigado por terdes participado de meus dias. Adeus.” E, olhando para o filho com um ar sereno, acrescentou: “Adeus, filho meu. Sê feliz todos os dias de tua vida.” A essas palavras, fechou os olhos e expirou, sorrindo.

O Segundo Rei e os Mestres de Tradição ficaram ainda ali por alguns instantes; aquele ainda ficou mais tempo e estes então saíram, para dar início aos preparativos para o funeral do Primeiro Rei de Mezelis.

El’læ foi pranteado por todos os seus súditos, e o luto por sua morte estendeu-se por todo um mês. Ao final do luto, reuniu-se o Conselho dos Mestres de Tradição, juntamente com o antes chamado príncipe Kalaras, e, no dia seguinte, em frente ao palácio, diante de todo o povo, ele foi coroado rei de Mezelis, com o novo nome de Kal’læ, o Segundo Rei, e unanimemente aclamado pelo povo.

“Mezelash, povo comigo coroado pelas Montanhas Majestosas! Hoje começamos uma nova era de nossas vidas”, disse ele. “Convosco desejo fazer de nosso reino um lugar ainda mais feliz, e desejo que os próximos tempos sejam tempos favoráveis a todos os nossos projetos. Lutar a vosso favor e ao vosso lado ser-me-á tanto ou mais importante que o ar que eu respiro, que a minha própria vida: sem respirar, não teria forças para lutar, e, se não lutasse por vós e ao vosso lado, respirar não teria sentido…” Uma onda de aplausos e vivas o interrompeu. Ele esperou um pouco, ergueu as mãos como quem pede calma, e prosseguiu: “Mas, antes de qualquer coisa, desejo fazer-vos uma proposta que, segundo penso, não recusareis. Meu pai, o amado rei El’læ, partiu, mas sua memória não nos deixou. E, para que sua lembrança continue conosco enquanto existirmos, que o reino de Mezelis receba seu nome e, daqui por diante, sejamos chamados reino de El’las!” A essas palavras, o povo explodiu em palmas, gritando: “Brilhe a luz sobre Kal’læ, nosso rei, rei de El’las!”

• • •

Cheguei, pois, ao Reino de El’las alguns anos depois da coroação do rei Kal’læ. Parei no cume das montanhas de Mezelis e olhei para baixo, admirando a simples mas bela cidade, com seus moradores ocupados andando por toda parte, com suas crianças brincando na praça, com seus anciãos conversando nos bancos de madeira negra. Vi os guardas em roupas solenes guardando os portões da cidade, instalados no único muro externo construído por mãos humanas que ali havia. Alegrei-me em meu íntimo por aquele povo, ao perceber sua determinação e sua força, que lhe permitiram crescer tanto e tão rápido.

Desci devagar a suave encosta, sorrindo sozinha, seguindo pela via pavimentada de pedras brancas que conduzia aos portões. Parei diante deles, admirando o brasão do Reino: uma coroa enfeitada envolvendo um reluzente diamante, sobre um fundo azul. Compridas bandeiras azuis e brancas tremulavam docemente no alto do muro, colocadas de três em três braças. Aproximei-me um pouco mais, e um dos guardas interpelou-me.

“Quem és, de onde és, e a que vens?”

“Quem sou? Ora, tenho vários nomes, um em cada lugar que visitei… mas, nesta região, chamam-me Sábia Aræn”, respondi. E, erguendo a mão esquerda, como sabia ser o costume do lugar, ajuntei: “Brilhe a luz sobre vós!”

Com a expressão de quem se lembra de alguém importante, os guardas imitaram-me, erguendo prontamente suas mãos e disseram em coro: “Brilhe sobre vós também a luz!” A seguir, o que estava à minha esquerda disse-me: “A que devemos a honra de tão feliz visita? Tenho certeza de que nosso rei Kal’læ muito se alegrará com vossa presença, Sábia Senhora Aræn! Ele sabe de vossa chegada?”

“Na verdade, não; e eu gostaria que, por ora, ele continuasse sem saber.” Diante do olhar intrigado dos guardas, continuei: “Será melhor assim, asseguro-vos. Se me permitis, gostaria de entrar e descansar um pouco. Quero ver de novo este lugar tão belo e enlevador, conversar com essa gente tão acolhedora, e depois dirigir-me-ei ao palácio de Kal’læ.”

“Se assim desejais, Sábia Aræn, assim seja feito.” E, gritando para dentro: “Abri os portões!”

A essas palavras, os gonzos rangeram baixo e as pesadas portas de madeira forte, vinda da distante Álgia Oriental, abriram-se de par em par diante de mim. Adiantei-me um ou dois passos, olhando para dentro e divisando bem longe o palácio, e disse: “É agora, povo El’las! Eis que o início de tua verdadeira vida finalmente chega!”

2 comentário(s):

Daniel. disse...

Tá bonito, parece um bom começo de uma boa estória. (bom, caso nunca tenha percebido, eu sou crítico em excesso... aqui vai um exemplo...) espero que o humanismo não impere em tuas palavras para sempre.

Mas tá muito bonitinho. O estilo é demorado e cansativo, pessoas preguiçosas não vão ler... mas eu gostei muito!

=]

Abel Chiaro Lombardi disse...

Obrigado pelo "bonito"...

Quanto ao humanismo, vá tendo paciência — especialmente porque o rei El’læ é fichinha perto da Sábia Aræn... =). Mas aquela guerra que vc leu daquela vez é parte desta história, então fique tranqüilo que a coisa melhora... (espero)

Quanto às formas de tratamento entre os personagens, estas vão se manter, porque na cultura deles há uma distinção forte entre as formas respeitosas e as familiares ("tu" para eles NÃO É IGUAL a "você"), e os Mestres de Tradição são bem conservadores (não estamos na Idade Moderna, ora! ;)); eu quero refletir isso no modo de escrever...

Mas obrigado por ter lido; pretendo postar o Capítulo II ainda hoje...

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