sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Ictus — II

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Eu agira como se ignorasse as enormes margens de erro com que os atuais instrumentos de deslocamento no subespaço obrigam pilotos e cientistas a trabalhar — em outras palavras, eu, irresponsavelmente, contara com um golpe de sorte e ajustara as coordenadas do motor de subespaço para um ponto próximo demais da atmosfera de α Aciei 3. Assim, graças a mim, estávamos em rota direta de colisão com a estação espacial Astrid-2, uma das maiores já construídas, tripulada por pelo menos cinco centenas de pessoas, entre elas cientistas de renome interplanetário.

Na hipótese mais otimista, apenas resvalaríamos na estação e a tiraríamos de órbita — o que, com ainda mais otimismo, poderia ser consertado; mas, dados nosso ângulo de aproximação, nossa velocidade e, principalmente, o tamanho e a massa da Ictus — um cruzador de quase meio quilômetro de comprimento e milhares de toneladas de peso —, tudo levava a crer que a hipótese mais pessimista se confirmaria: bateríamos em cheio, e não só as duas tripulações seriam mortas, como tanto o cruzador quanto a estação despencariam na superfície do planeta, podendo matar outras tantas pessoas inocentes do meu erro.

Evidentemente, mover-se no espaço não é tão simples quanto mover-se num planeta, e infinitamente mais complexo seria mover uma massa tão descomunal numa janela de tempo tão reduzida quanto a que tínhamos — mas o capitão Lucek ainda tinha esperança, ou melhor, ainda temia pela própria vida e pela própria reputação, e não queria terminar daquela forma, causando a morte de quase mil pessoas numa operação absolutamente ilegal.

“E então, tenente, o que diz a estação?”

“Parece que deflagramos uma onda de pânico por lá, capitão. O comandante da estação procurou manter a calma como pôde, e pediu-nos alguns minutos para fazer os devidos cálculos com a equipe de navegação — e”, hesitei, “sugeriu que fizéssemos o mesmo.”

O capitão não respondeu. Em vez disso, postou-se diante dos instrumentos de navegação e analisou-lhes as leituras, praguejando em voz baixa numa língua incompreensível. Então voltou-se para mim abruptamente, e perguntou:

“Tenente Aardia, você certamente se lembra de sua última instrução de vôo, não?”

“Eu não poderia esquecer jamais aquele dia, Capitão Lucek”, respondi, antes de perceber aonde ele queria chegar. Quando compreendi, arregalei meus olhos em vivo espanto. “O senhor não espera que eu…” Não pude terminar a frase.

“Naquele dia, tentente, você nos colocou em situação semelhante e conseguiu escapar — e foi a sua habilidade naquela situação extrema que a pôs aqui, no comando da ponta-de-lança da Frota. Pois bem, é hora de mostrar mais uma vez o que sabe.”

“Mas…”

“Mas?! Há muito mais em jogo aqui do que naquele dia, Tenente Aardia! Nós não estamos num simulador, e não temos tempo!”

Eu sabia que não adiantaria dizer que eu sabia das nossas condições e que seria excesso de ousadia confiar a mim a responsabilidade de tentar tirar-nos daquela situação; assim, outra vez calei-me, embora a ironia fosse apropriada: se eu causara aquela iminência de desastre, justo seria que eu a resolvesse. Limitei-me, pois, a um “sim, senhor” sem entusiasmo, e sentei-me em minha cadeira, distribuindo ordens aos demais oficiais de navegação, que procuravam — sem sucesso — disfarçar sua tensão.

“Tar-ki, há tempo para uma translação no subespaço?”, perguntei.

“Não, senhora. A janela de segurança fechou-se há vinte segundos.”

Proferi uma imprecação entredentes, porque, agora, nossa única alternativa era a mais difícil: desviar a rota da Ictus num tempo exíguo, com praticamente nenhum espaço de manobra. Exatamente a mesma situação em que me coloquei na minha última instrução de vôo.

“Então quero metade da força nos motores dianteiros inferiores, Tei’sah, e um quarto nos traseiros inferiores! E cuide para que os lastros estejam posicionados para um giro de três, nove, quatro e meio! Já!”

“Sim, senhora!”, respondeu ele, e, dali a alguns instantes, “TDI 0.5, TTI 0.25, L 3–9–4.5! Feito!”

“Ótimo”, disse eu, por força de expressão. Cabia a mim, agora, dosar a potência dos motores e torcer para que a Ictus se desviasse a tempo.

Mas isso não foi possível.

continua

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