sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Ictus — I

Notas:
  • Esta é a minha primeira tentativa de escrever ficção científica, de forma que peço a condescendência do caro leitor.
  • As unidades de medida (espaciais, temporais, ou quaisquer outras) usadas no texto são sempre as usadas na Terra (primeiro planeta da Federação a unificar seu sistema de medidas baseando-se em padrões confiáveis, depois adotado em todos os sistemas federados), a menos que haja especificação em contrário.

“Acho que vamos precisar usar o plano B, tenente”, disse o capitão, tentando, sem grande sucesso, esconder sua apreensão.

“Nós temos um plano B, capitão?”, perguntei eu, com afetada surpresa, mas ele nem se moveu.

É claro que não havia. Todos os planos de vôo de todos os cruzadores da Frota eram meticulosamente elaborados, sempre levando-se em conta todas as eventualidades possíveis, especialmente as mais, digamos, indesejáveis. Além disso, normalmente, eu não ousaria questionar o capitão Lucek; não apenas ele era tido como a personalidade mais difícil dentro de toda a Frota, mas também como o mais capaz dentre todos os oficiais do Exército Federado (corria o boato de que ele só não era ainda o Marechal-do-Espaço porque os generais não tolerariam a idéia de serem subordinados a alguém mais jovem que eles).

Mas questionei-o, assim mesmo; afinal, as vidas de centenas de pessoas, tanto dos tripulantes da Ictus quanto da Plataforma Astrid-2, estavam em jogo, e aquele não era o momento de querer manter as aparências.

A idéia um tanto ousada (para não qualificá-la de irresponsável, como certamente fariam os Marechais) de usarmos o subespaço como um “atalho” fora dele; e eu, como oficial de navegação da Ictus, mantive-me calada, apesar de ser meu dever lembrar-lhe dos riscos antes de executar a ordem. “Não é hora de continuar calada”, pensei, “especialmente porque foi meu o erro de cálculos que causou este incidente.”

“Nós temos um plano B, capitão?”, repeti, sabendo que o risco em que eu incorria era infinitamente menor que aquele do qual precisávamos escapar.

“Vou pensar em alguma coisa”, respondeu ele, sem me olhar. “Coloque toda a tripulação em alerta de combate, tenente, e explique nossa situação à Astrid-2.”

Tão logo dei-lhe as costas para ir cumprir a ordem, ele disse, “Diga aos operadores que nós ficaremos imensamente gratos se eles tiverem alguma idéia.”

• • •

A Ictus era um cruzador interestelar da nova classe DW-C, isto é, possuía, além dos típicos motores de deslocamento espacial que equipavam todas as naves da Frota, um motor de dobra e um de subespaço, antes conhecido como gerador de wormholes — que os tripulantes costumavam chamar de abridor —, bem como um sistema de escudos e armamentos projetados para batalhas em altitude orbital. Naquela viagem, entretanto, desempenhava, irregularmente, a função de um mero cargueiro.

Vínhamos de β Cygni para α Aciei, trazendo uma providencial “ajuda” para uma guerra de escala global que assolava, havia uma década terrestre, o terceiro planeta do sistema, α Aciei 3 — comumente chamado de Terra, apesar das controvérsias entre os membros do Conselho Astronômico da Via Láctea.

Ninguém do Alto Comando da Frota sabia do exato teor daquela missão — e muito menos suspeitavam de quem a solicitara. Evidentemente, não foi sem uma ponta de desconfiança dos Marechais que recebemos autorização para partir para uma região tão pacífica da Federação com um cruzador do porte da Ictus. Havia, ainda, um agravante: nosso “contratante” solicitou — ou, antes, exigiu — que chegássemos a α Aciei 3 dentro de seis meses terrestres, o que tornaria nossa viagem ainda mais irregular: percorrer 385 anos-luz em tão pouco tempo com um cruzador de guerra, fora de sua função. Mas todos esses “obstáculos” foram superados com uma boa e velha troca de favores — uma das poucas coisas que não mudaram na humanidade ao longo de tantos e tantos séculos.

O método, aliás, teria de ser repetido em α Aciei 3 — naves de guerra do tamanho da Ictus só muitíssimo raramente pousavam nos chamados “planetas brancos” (equivalentes, em escala galáctica, ao que uma pequena nação da Terra, chamada Suíça, fora nos tempos antigos); ao contrário, pelo procedimento padrão, nosso cruzador deveria ficar na estação orbital Astrid-2, e precisaríamos de justificativas verdadeiramente impressionantes para conseguirmos uma autorização para adentrar a atmosfera e pousar num planeta neutro com um cruzador de guerra.

Enfim, o “plano A” do capitão Lucek surgiu no princípio da viagem, apenas um mês após a nossa partida de β Cygni. Estávamos apreensivos, desejando que a Frota, compreensivelmente curiosa em relação aos nossos motivos, não nos monitorasse toda a viagem; assim, ele sugeriu, ou melhor, decidiu, que valeria a pena correr o risco de chamarmos muito mais atenção usando o ainda experimental motor de subespaço para reduzir drasticamente a duração da viagem, com a vantagem de, no seu entender, reduzirmos também o tempo durante o qual poderíamos ser “escutados” pela Frota.

Calada, pois, ignorei as inúmeras incertezas inerentes às viagens pelo subespaço, e abri um wormhole da nossa posição atual até a distorção espacial causada pela massa da Terra — procedimento complexo que eu já havia realizado com êxito inúmeras vezes nos simuladores da Frota, mas que nunca havia feito no universo real —, e terminei por cometer um grave erro, que agora poderia custar as vidas de centenas.

CONTINUA

2 comentário(s):

Cabeça disse...

Eu exigo que você continue! =]
(tá ficando interessante... ainda muito vago, só sei que algo deu errado, estou curioso...)

Narlla disse...

Muito interessante... continue... continue...!
Um bjinho, q Deus te abençoe

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