sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Ictus — II

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Eu agira como se ignorasse as enormes margens de erro com que os atuais instrumentos de deslocamento no subespaço obrigam pilotos e cientistas a trabalhar — em outras palavras, eu, irresponsavelmente, contara com um golpe de sorte e ajustara as coordenadas do motor de subespaço para um ponto próximo demais da atmosfera de α Aciei 3. Assim, graças a mim, estávamos em rota direta de colisão com a estação espacial Astrid-2, uma das maiores já construídas, tripulada por pelo menos cinco centenas de pessoas, entre elas cientistas de renome interplanetário.

Na hipótese mais otimista, apenas resvalaríamos na estação e a tiraríamos de órbita — o que, com ainda mais otimismo, poderia ser consertado; mas, dados nosso ângulo de aproximação, nossa velocidade e, principalmente, o tamanho e a massa da Ictus — um cruzador de quase meio quilômetro de comprimento e milhares de toneladas de peso —, tudo levava a crer que a hipótese mais pessimista se confirmaria: bateríamos em cheio, e não só as duas tripulações seriam mortas, como tanto o cruzador quanto a estação despencariam na superfície do planeta, podendo matar outras tantas pessoas inocentes do meu erro.

Evidentemente, mover-se no espaço não é tão simples quanto mover-se num planeta, e infinitamente mais complexo seria mover uma massa tão descomunal numa janela de tempo tão reduzida quanto a que tínhamos — mas o capitão Lucek ainda tinha esperança, ou melhor, ainda temia pela própria vida e pela própria reputação, e não queria terminar daquela forma, causando a morte de quase mil pessoas numa operação absolutamente ilegal.

“E então, tenente, o que diz a estação?”

“Parece que deflagramos uma onda de pânico por lá, capitão. O comandante da estação procurou manter a calma como pôde, e pediu-nos alguns minutos para fazer os devidos cálculos com a equipe de navegação — e”, hesitei, “sugeriu que fizéssemos o mesmo.”

O capitão não respondeu. Em vez disso, postou-se diante dos instrumentos de navegação e analisou-lhes as leituras, praguejando em voz baixa numa língua incompreensível. Então voltou-se para mim abruptamente, e perguntou:

“Tenente Aardia, você certamente se lembra de sua última instrução de vôo, não?”

“Eu não poderia esquecer jamais aquele dia, Capitão Lucek”, respondi, antes de perceber aonde ele queria chegar. Quando compreendi, arregalei meus olhos em vivo espanto. “O senhor não espera que eu…” Não pude terminar a frase.

“Naquele dia, tentente, você nos colocou em situação semelhante e conseguiu escapar — e foi a sua habilidade naquela situação extrema que a pôs aqui, no comando da ponta-de-lança da Frota. Pois bem, é hora de mostrar mais uma vez o que sabe.”

“Mas…”

“Mas?! Há muito mais em jogo aqui do que naquele dia, Tenente Aardia! Nós não estamos num simulador, e não temos tempo!”

Eu sabia que não adiantaria dizer que eu sabia das nossas condições e que seria excesso de ousadia confiar a mim a responsabilidade de tentar tirar-nos daquela situação; assim, outra vez calei-me, embora a ironia fosse apropriada: se eu causara aquela iminência de desastre, justo seria que eu a resolvesse. Limitei-me, pois, a um “sim, senhor” sem entusiasmo, e sentei-me em minha cadeira, distribuindo ordens aos demais oficiais de navegação, que procuravam — sem sucesso — disfarçar sua tensão.

“Tar-ki, há tempo para uma translação no subespaço?”, perguntei.

“Não, senhora. A janela de segurança fechou-se há vinte segundos.”

Proferi uma imprecação entredentes, porque, agora, nossa única alternativa era a mais difícil: desviar a rota da Ictus num tempo exíguo, com praticamente nenhum espaço de manobra. Exatamente a mesma situação em que me coloquei na minha última instrução de vôo.

“Então quero metade da força nos motores dianteiros inferiores, Tei’sah, e um quarto nos traseiros inferiores! E cuide para que os lastros estejam posicionados para um giro de três, nove, quatro e meio! Já!”

“Sim, senhora!”, respondeu ele, e, dali a alguns instantes, “TDI 0.5, TTI 0.25, L 3–9–4.5! Feito!”

“Ótimo”, disse eu, por força de expressão. Cabia a mim, agora, dosar a potência dos motores e torcer para que a Ictus se desviasse a tempo.

Mas isso não foi possível.

continua

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Idharos — II
 – O Primeiro Contato – 

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Notas:
  • Slovar é uma bebida agridoce de cor verde-clara, consumida fria, muito apreciada nos reinos conhecidos no continente de Nashelas, no sudeste do qual se situa o vale de Mezelis. Acredita-se que a bebida tenha leves propriedades calmantes.
  • Aslovar é a árvore de cujas folhas se extrai o slovar.

O sol se punha quando entrei na cidade. Devido à posição das Montanhas Majestosas, já escurecera bastante, e um céu arroxeado estendia-se sobre o vale. Os lampiões, colocados no alto de mastros distribuídos regularmente ao longo de todas as ruas, terminavam de ser acesos. O último foi o que estava mais próximo de mim, à minha direita. Cumprimentei o homem que o acendera, com a mesma saudação com que saudara os guardas da entrada.

“Brilhe sobre ti também a luz!”, respondeu ele. Seu olhar revelava curiosidade; devia ter ele perto de sessenta anos, ou, como se dizia em El’las, algo em torno de cento e vinte recomeços. Não se conteve e falou: “Perdoa-me a indiscrição, mas nunca te vi em nenhuma parte do reino… e isso posso afirmar, pois já há seis recomeços que sou eu quem acende cada um desses lampiões que vês e por isso conheço cada pessoa e cada detalhe deste reino! Não és daqui, se estou certo… e, se estou errado, acho que já começo a ficar esquecido…”

Sorri, diante do jeito divertido dele. “Estás certo em dizer que não sou daqui; de fato, venho de fora. Vim visitar tua terra, conhecer o vosso povo e o vosso rei. Mas, dize-me: qual é o teu nome?”

“As pessoas daqui chamam-me Fam’nas. E, se posso perguntar, qual o teu nome?”

“Ora, Fam’nas, por que tanta solenidade? É claro que te direi meu nome, ou pelo menos um deles. Nesta região, chamam-me Sábia Aræn.”

Os olhos dele demonstraram surpresa. “Se chegaste a ficar conhecida como sábia, então deves realmente sê-lo. As pessoas de fora parecem relutar em fazer elogios uns aos outros…”

Sorri outra vez. “Bem, se assim o dizes… Mas, mudando de assunto, decerto sabes onde encontro a pousada mais próxima; meus pés estão bastante cansados de minha longa viagem — andei muitos e muitos horizontes, e sinto-me exausta. Onde poderia eu hospedar-me, para melhor aproveitar minha estada aqui?”

Seus olhos brilharam. “É claro que sei: já disse que eu mesmo acendo todos os lampiões deste reino, há exatamente seis recomeços!” Ficou com um ar orgulhoso, e acrescentou: “Seis recomeços completados exatamente ontem, com toda a honra e sem nenhuma falha!”

“Sim, compreendo; meus sinceros parabéns.” Olhei-o nos olhos. “Mas, se te recordas de minha pergunta, não me respondeste onde encontro a pousada mais próxima… Lembras-te? Disse-te que preciso descansar…”

Seu rosto tomou agora uma feição preocupada. “Ah! Sim, lembro-me! Perdoa-me, senhora Sábia Aræn!” Apontou para a esquerda: “A Brisa de Leste fica duas ruas atrás destas casas. Perdão novamente se te fiz esperar… se desejares, posso acompanhar-te até lá; já acabei meu serviço por hoje, de qualquer forma.”

Agradeci-lhe e com ele segui até a pousada, observando as casas à minha volta. Como haviam mudado! Uma vez mais alegrei-me por aquele povo, admirando-lhe a rapidez com que foram capazes de prosperar. Passávamos em frente a uma grande casa de pedras marrons, com arcos sobre as janelas e as portas, e fitas coloridas que pendiam do telhado, quatro braças acima de nossas cabeças. Perguntei a Fam’nas o que significavam.

“Essas fitas querem dizer que alguém que viajou para muito longe voltou, depois de passar um longo tempo fora”, respondeu ele. “Mas não sei desde quando se faz isso aqui, pois não sou El’las de nascimento, na verdade: vim das Grandes Ilhas numa caravana mercante… há dez recomeços, apenas. Gostei tanto deste reino que resolvi ficar, e agora, quero dizer, há seis recomeços, sou o encarregado de acender os lampiões da cidade quando o sol começa a esconder-se no alto das Montanhas Majestosas… Ah!” Fez uma expressão de quem procura alguém em volta, e começou a falar mais baixo. “Não sei se já te disse, e peço-te que isso fique entre nós, mas muitas vezes já aconteceu de eu esquecer um ou dois lampiões perto de minha casa…”

Sem a intenção de acusá-lo, apontei-lhe a pequena mentira dita há pouco: “Perdão se assim te falo, mas há alguns minutos disseste-me que foram ‘seis recomeços com toda a honra e sem nenhuma falha’!”

Fam’nas pigarreou e demonstrou ter ouvido, mas nada disse. Dentro em pouco chegamos à Brisa de Leste e, quando paramos em frente à porta, ele despediu-se, dizendo: “Muito bem, senhora Sábia Aræn, cá estamos diante da Brisa de Leste. E lembra-te: sempre que de mim precisares, procura-me em minha casa; ela fica a sudeste do poço, de frente para ele. Sabes onde fica o poço?”

“Eu o vi antes de entrar na cidade, quando parei no cume das montanhas de Mezelis.” Ergui a mão esquerda: “Obrigada, e que a luz brilhe sobre ti!”

“Que a luz brilhe sobre ti, também! Bem-vinda ao vale de Mezelis!”

Acenei-lhe com a cabeça e entrei na pousada. Era uma grande edificação de sólidas paredes feitas de uma madeira castanho-avermelhada vinda da distante Álgia. Nas paredes à esquerda e à direita do curto corredor que dava para o vestíbulo de entrada, havia quadros verdes repletos de recados anotados em papel. Nas laterais, havia também dois bancos de madeira, baixos e longos, da mesma cor das paredes, destinados àqueles que fossem esperar hóspedes saírem ou visitantes chegarem.

Rapidamente cheguei ao vestíbulo de entrada, e dali à taverna, que tinha uma outra porta para o lado de trás da pousada. Ali, encontrei o homem a quem viera de longe procurar, e encontrei-o mais cedo do que esperava; não que contasse com uma longa busca num reino tão pequeno, ou com a possibilidade de não encontrá-lo em El’las, mas tampouco contava com a possibilidade de encontrá-lo no primeiro dia. Ele estava sentado numa mesa ao fundo, com uma caneca de slovar nas mãos; olhava-a concentrado, como se dentro dela estivesse a solução para todos os problemas do mundo. Usava uma surrada capa marrom, com um enorme capuz que quase lhe cobria o rosto mas deixava entrever sua expressão triste e bastante preocupada. Aproximei-me devagar; não sabia como ele iria reagir.

Ele não levantou a cabeça, nem deu qualquer sinal de ter-me visto. Fui então até o balcão e pedi para mim uma caneca de slovar, e voltei à mesa. Sentei-me à sua frente, mas ele ainda não se moveu; pude ver que ele pedira a caneca, mas não bebera um só gole. Bebi um, e decidi falar primeiro.

“Boa noite, senhor.”

Esperei até que ele me olhasse; pareceu voltar de um outro mundo e olhou-me com olhos vazios. Olhou-me ainda alguns instantes, interrogando-se quem eu era e o que estaria fazendo ali, antes de dirigir-me a palavra.

“Quem és tu, e o que queres de mim?” Não respondi; ele percebeu logo o quanto fora brusco e desculpou-se depressa. “Perdão, senhora; estou passando por uma época difícil com a qual não tenho sabido lidar. Não era minha intenção tratar-te mal, de forma alguma… não te conheço, não sei de onde vens, não sei a que vens, não tenho o direito de fazer-te pagar pelo que culpa tua não é.”

“Fica calmo, por favor, e não te incomodes comigo; não quero ser mais um problema para ti.” Eu também não esperava que ele falasse tanto logo no primeiro dia. Já desde o início, pude perceber que as coisas seriam mesmo rápidas, como eu previra.

“Agradeço por procurares compreender-me, mas insisto que nenhum problema meu é motivo grande o bastante para eu ter o direito de tratar mal a alguém. Como te chamas, para que eu te possa fazer meu pedido de perdão da maneira devida?”

“Como te responderei? Chamam-me por muitos nomes em todas as partes por onde andei.”

Essa resposta não o agradou.

“‘Chamam-te’? Está certo, não perguntarei. Mas perdoa-me, e que a luz brilhe sobre ti, senhora!” Ao dizer a saudação, ergueu a mão esquerda sem muito ânimo, e a exclamação não passou de uma afetação no fim da frase. Percebi-o, e ele percebeu que eu percebera. Baixou os olhos de volta para a caneca.

“Brilhe a luz sobre ti, também!” Ele pareceu surpreso ao ver-me saudá-lo da mesma forma. “Também não sei teu nome, senhor.”

Ele hesitou muito antes de responder; bebeu todo o slovar da caneca de um só gole, e ficou olhando para algum ponto dentro dela. Levantou os olhos para mim e, ao ver que eu o olhava, desviou-os logo de volta para a mesa, e permaneceu calado.

“É justo que também não me queiras revelar teu nome”, disse eu, “e sei que os motivos de tua angústia são muito mais importantes que uma estranha com palavras sem sentido. Não, não digas nada. Já pedi que não te incomodasses comigo. Vim oferecer-te a minha ajuda, toda a que eu puder dar.”

Novamente ele demorou a responder. “Perdão se pareço ríspido, mas, sinceramente, não vejo em que tu me possas ajudar. Ouve-me: agradeço por teu oferecimento, mas infelizmente não posso aceitá-lo. Meus problemas, em primeiro lugar, são meus e, depois, são grandes demais para que eu me sinta tranqüilo com a idéia de impô-los a outra pessoa, especialmente a uma que acabei de conhecer e que se me mostrou tão cortês.”

“Minha ajuda não exige que saibas como pretendo auxiliar-te, senhor. Quanto ao tamanho de teus problemas, suponho que todos tenham começo e fim, ou estaria eu errada?”

“Que queres tu dizer com isso? Começo todos eles têm, e sei onde e como começaram, e sei que hão de ter conseqüências, mais cedo ou mais tarde; mas não vejo nenhum porto a que me possa amarrar nesse mar de tempestade, e insisto que não vejo que meios tu poderias ter para ajudar-me a guiar meu barco para um lugar seguro.”

“Acaso oferecer-te-ia eu ajuda se não soubesse como ajudar-te?” Ele semicerrou os olhos e balançou a cabeça, descrente, e continuou olhando para a mesa. Continuei. “Não, não precisas dizer-me que sequer sabes quem sou nem que eu não teria como saber quais são os teus problemas; sei que acabaste de pensá-lo.” Olhou-me afirmativamente, com ligeiro desdém, e eu disse ainda, “Mas sei também que hesitarias em dizê-lo, posto que isto inevitavelmente levar-me-ia a perguntar quais são os teus problemas, e tu não mos quereria relatar. Estou certa? Não foi isto que pensaste agora?”

“Sim, foi, e de novo agradeço por me quereres compreender; mas escuta: de forma alguma quero que penses ser eu um homem rude que recusa toda ajuda que lhe é oferecida. Sinceramente agradeço por tua preocupação — ainda que me pareça muito estranho receber uma oferta de ajuda de alguém que, até onde me lembro, nunca vi nem nunca me viu —, mas não posso aceitá-la agora. Meu fardo é por demais pesado, e não me sentiria à vontade ao impô-lo a outra pessoa. Não. Isto não posso fazer.”

“Não te quero forçar a nada que não queiras fazer, senhor.” Ele olhou-me com viva estranheza. “Permite-me explicar-me. Vim para ajudar-te. Talvez penses que, na verdade, entrei aqui e, por ter-te visto e percebido tua preocupação, esteja eu tão somente escolhendo palavras bonitas para consolar-te, oferecendo-te ajuda. Mas não é assim.”

“Como é, então? Perdoa-me uma vez mais minha rispidez, mas esta conversa não me está ajudando em absoluto.” Levantou-se da mesa abruptamente, dizendo: “Tenho de ir agora. Volto para minha casa, onde deitar-me-ei e de olhos abertos esperarei e verei pela janela o dia começar outra vez. A luz brilhe sobre ti.”

Levantei-me também. “Por favor, não te vás agora.” Ele olhou-me interrogativamente. “Se queres que eu diga a que vim, dir-te-ei de uma vez. Como disse, não cheguei a esta taverna por acaso, nem vim oferecer-te ajuda com palavras escolhidas. Não. Vim de longe, de muito longe, especificamente para o Vale de Mezelis, cercado pelas Montanhas Majestosas, para o Reino de El’las, para ajudar-te. Eu, de fato, não esperava encontrar-te ainda hoje, mas, já que tal se deu, não quis esperar pela eventualidade de um segundo encontro; mesmo porque, como já me demonstraste, teus problemas necessitam de solução urgente. Eis o que aqui se passa, e asseguro-te que não há falsidade em nenhuma destas palavras.”

Finalmente eu ganhara sua atenção.

“Muito bem, senhora, conseguiste despertar minha curiosidade. Mas não quero nem posso falar-lhe agora, nem aqui. Preciso verdadeiramente deitar-me. Vi passarem as três últimas noites, e isso me deixou esgotado. Assim, se me permites, vou-me agora.”

“Compreendo perfeitamente teu estado. Mas, antes de te ires: onde e quando falaremos? Precisas urgentemente de ajuda e eu, de minha parte, quero muito ajudar-te. Ouso dizer até que ambos temos pressa nessa questão; por que adiá-la? Muito tempo já se passou e os problemas não se resolveram por si mesmos, nem se resolverão. Não estes.”

“Está certo, senhora. Encontra-me então amanhã, antes do nascer do sol, no extremo sul do vale; há ali um pomar de aslovar que pertence a um amigo meu. Atrás desse pomar, algumas braças mais ao sul, há alguns rochedos baixos no sopé do monte Idhar. Espera-me ali, e irei ao teu encontro. Então conversaremos. A luz brilhe sobre ti!”

Virou-se e saiu rapidamente, e não vi que rumo tomou. Respondi à despedida logo antes que ele ultrapassasse a porta, e ele apenas ergueu a mão esquerda, sem parar de andar nem olhar para trás.

continua

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Idharos — I
 – O Reino de El’las – 

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A chegada da Sábia Senhora Aræn ao reino de El’las.

Mezelis era o nome do belíssimo vale cercado pelas Montanhas Majestosas, assim chamadas por estarem dispostas em forma de coroa, encabeçadas ao sul pelo altíssimo e sempre imponente monte Idhar. A cadeia de montanhas que dava nome ao vale ficava ao norte e, sendo estas mais baixas que as demais, permitiam o acesso de e para o mundo de fora. Todo o solo do vale era recoberto por grama sempre verde, vivamente verde, continuamente irrigada pela água que descia pelas montanhas, escorrendo desde as neves eternas lá em cima.

Em Mezelis vivia um povo determinado e trabalhador, cordial e acolhedor, e que tinha um aguçado senso de justiça. Assim eram desde que ali chegaram as primeiras famílias, vindas há muito tempo de um lugar cujo nome já fora esquecido. Foram elas que cavaram o velho poço que ficava no centro da vila e ergueram suas pedras que, anos e anos depois, ainda ali estariam, recobertas de limo por dentro e por fora.

No início, aquele povo morava em cabanas ao redor do poço, cabanas pequenas e cabanas grandes, e algumas poucas um pouco maiores. Estas eram as chamadas “escolas”; ali, os anciãos ensinavam às crianças as histórias antigas, e os adultos ensinavam aos jovens as artes de combate — que não eram exatamente apreciadas por aquele povo, mas encaradas como um mal infelizmente necessário. Havia ainda duas pequeninas fazendas com pequenos campos cultivados e rebanhos de ovelhas, e alguns cavalos.

A vila era freqüentemente visitada por numerosas caravanas vindas de todas as partes imagináveis do mundo, que sempre traziam inúmeros mercadores ansiosos por distribuir suas cargas e ávidos pelas moedas dos moradores locais. Moedas que, é sempre bom lembrar, só foram ali adotadas por questão de necessidade, e com a relutância dos anciãos; já havia algum tempo que as poucas plantações e os pequenos rebanhos não eram suficientes para alimentar a todos.

A cada chegada de uma nova caravana, o centro da vila ficava apinhado de gente perambulando de um lado para outro, negociando, conversando, discutindo, gesticulando. Dessas caravanas aquele povo tirou boa parte de sua cultura, aprendendo novos costumes, novas palavras e até mesmo novas letras. Todo esse novo conhecimento que não parava de chegar fez com que os anciãos tomassem a iniciativa de formar um conselho para recolher e manter registrada a história de seu povo, para que não fosse esquecida, e sua língua e suas letras, para que todos dali em diante pudessem aprendê-las e usá-las.

Ali havia um rapaz de quatorze anos, chamado Elaras, querido e respeitado por todos, atencioso, prestativo, cortês. Era de poucas palavras, mas era mesmo mais conhecido por seus atos; buscava sempre oferecer favores aos outros antes que lhos pedissem e, dentro dos limites de sua idade, procurava ajudar a todos em tudo. Ainda muito jovem começou a freqüentar as reuniões do conselho dos anciãos, e também ali foi acolhido com alegria.

Os anos foram-se sucedendo uns aos outros, e a vila cresceu. A cada caravana que chegava, duas ou três pessoas ficavam, incorporando-se àquele povo amigo e chamando-o seu; assim, enriquecia-se o vale continuamente, tanto em posses quanto em pessoas, e a vila prosperava mais e mais a cada ano. Crescia o povo de tal forma que a vila também precisou crescer — aos poucos, as cabanas foram dando lugar às casas, e os caminhos de terra batida foram devagar sendo substituídos por ruas pavimentadas de pedras brancas vindas das Grandes Ilhas. Os anciãos passaram a ser chamados Mestres de Tradição e criaram um Conselho permanente e regular que, além de cuidar da cultura de Mezelis, legislava sobre a vila agora tornada cidadezinha e cuidava do bem-estar do povo, deliberando sobre cada passo a ser dado para manter felizes todos os que ali viviam.

Elaras também cresceu, e agora era um homem respeitado por todos, e já era mesmo considerado um exemplo por algumas das zelosas mães que ali moravam. Quando o viam passando e tinham seus filhos junto a si, apontavam-no e diziam: “quando crescerem, meus rebentos, sejam como aquele homem, pois o que ele faz torna as pessoas felizes e é isso que o alegra”.

Elaras não cresceu apenas em idade, estatura, bondade e fama; após semanas de muita insistência por parte de todo o povo, aceitou ser nomeado chefe do Conselho dos Mestres de Tradição, mesmo sendo relativamente jovem para tal cargo — fato que, aliás, foi um dos argumentos que Elaras mais repetiu e que mais foi ignorado pelo povo.

A cidade continuava a crescer, e mais e mais casas iam salpicando o vale de Mezelis. Veio enfim o tempo em que, tendo a cidade ocupado quase toda a extensão do vale, de norte a sul e de leste a oeste, e tendo a população passado há muito tempo os milhares de pessoas, o Conselho dos Mestres de Tradição declarou a cidade elevada à categoria de reino; também um exército organizado já começava a consolidar-se, e a inevitável hierarquização dos postos já começava a ser delineada. E, como não poderia deixar de ser, após muita insistência do povo e uma reunião longuíssima com todo o Conselho — reunião que, de fato, durou vários e vários dias —, Elaras foi coroado rei, com o nome de El’læ, o Primeiro Rei.

Pouco restava da pequena vila que ali havia outrora. A maior das escolas, situada no extremo sul do vale, quase tocando o sopé das Montanhas Majestosas, foi transformada e decorada para merecer o nome de Palácio de Mezelis e ser considerada digna de abrigar um rei. Do palácio ao extremo norte agora estendia-se uma longa e larga rua de pedras brancas, tendo, na metade de seu comprimento e exatamente no centro, o velho poço. Ali era a praça central da cidade, deixada como memorial da antiga vila, e onde continuaram sendo armadas as freqüentes feiras dos mercadores das caravanas.

Passaram-se os anos, e El’læ envelheceu. Seu jovem reino cresceu com ele, e o cordial povo Mezelas, como eles chamavam a si mesmos, crescia em felicidade e em prosperidade; seu rei, por sua vez, crescia sempre na admiração do povo — todos o aprovavam, todos o tinham como exemplo, todos o obedeciam felizes e o obedeceriam em qualquer coisa. Era considerado um rei perfeito pelos seus súditos — “na medida em que um homem pode ser considerado perfeito”, como eles mesmos diziam —, mas, como todo homem, não duraria para sempre. Veio, pois, o dia em que El’læ sentiu estar próximo o momento em que deveria juntar-se a seus pais, idos já havia muito tempo.

Tinha El’læ um filho, Kalaras, um jovem que contava então dezoito anos, filho único, que deveria suceder-lhe no trono. Sentindo aproximarem-se os últimos instantes de sua vida, o rei chamou o príncipe a seus aposentos; nos seus derradeiros dias, já velho e cansado, passava boa parte do dia ali, em seu quarto, pois já não mais podia andar como antes.

“Kalaras, meu filho, chamei-te à minha presença para tratar de um assunto importante. Há muito eu o adiava, por julgar ser precipitação; mas eis que agora urge que dele te fale, posto que, a qualquer momento, pode ser tarde demais para que eu me decida a fazê-lo. Ouve, pois, e presta atenção ao que te direi; disso dependerá tua vida de ora em diante, disso dependerá teu futuro reinado sobre Mezelis.”

O semblante de Kalaras tornou-se preocupado. “Por que falas assim, meu pai? Sei que estás já velho, mas ainda tens saúde; não é porque já não podes fazer tudo que fazias no passado que deves já pensar nessas coisas. ‘Não há por que querer apressar a chegada de visitantes que não queremos ver’; sempre me disseste isso, lembras-te?”

“Aprecio a tua preocupação e o teu otimismo, meu filho, mas então aprende também isto: é grandíssima imprudência ignorar as coisas que estão na iminência de acontecer apenas porque desgostamos de seu aspecto ou de suas conseqüências. Ouve bem: aquele que ignora seu futuro por ter medo de pensar nele, pelo seu futuro será surpreendido e nele pode perder-se.”

Kalaras fechou os olhos e baixou a cabeça, como sempre fazia quando via que seu pai tinha razão e ele não — o que acontecia quase sempre. “Se assim dizes, meu pai, para mim assim é. Mas dize-me, então: o que é assim tão urgente que me fales?”

“Pois bem, Kalaras, eis que se aproxima o tempo em que deverás ser coroado rei em meu lugar, e o povo de Mezelis será confiado às tuas mãos. Mas não temas por esse dia: ele virá no tempo oportuno, posto que já te preparaste bastante para ele, e daqui até lá terás tempo para preparar-te ainda um pouco mais. Mas o problema é outro, meu filho, e ainda mais grave — se eu puder chamar tua coroação de ‘problema grave’”, disse ele, sorrindo com o último comentário. Kalaras também sorriu, e El’læ continuou o assunto. Dali a algumas horas, Kalaras saiu do quarto de seu pai, cabisbaixo e pensativo. Quem assim o visse prontamente lhe perguntaria o que acontecera: Kalaras era conhecido em todo o reino por sua viva alegria e por seu permanente sorriso; poucas, aliás, raras vezes fora visto com um ar de quem não tem motivos para sorrir apesar de tudo.

Passaram-se mais alguns meses, e o tempo de El’læ chegou. Numa fria manhã de céu nublado, chamou outra vez o filho a seu quarto, e disse-lhe: “Kalaras, filho meu, chegou o meu momento. Vou seguir meus pais na viagem que não tem volta, e então eis que chega o teu momento de suceder-me; quero que te lembres do que conversamos há algum tempo, e te digo agora uma palavra apenas, a que hoje penso ser a mais necessária para ti: coragem! Tens um povo leal e um Conselho sempre pronto a ajudar-te — não há, pois, por que te preocupares em demasia com as dificuldades.” El’læ tossiu duas vezes, e continuou: “É chegada a hora. Chama depressa os Mestres de Tradição, preciso falar-lhes!”

Kalaras saiu depressa do quarto e caminhava a passos rápidos; não sabia o que pensar. Dali a momentos, sabia e não adiantava tentar enganar-se, seu pai não mais estaria com ele. A coroa nem lhe passava pela cabeça, pois naquele momento não tinha a menor importância. Chegou ofegante ao salão, onde os Mestres estavam reunidos, e abriu a porta sem bater. “Perdão se sou inoportuno”, disse ele, “mas o rei El’læ deseja falar-lhes e diz ter urgência!”

“Sim, jovem príncipe Kalaras”, disse um deles, sem importar-se com o tratamento usado pelo rapaz. “Estávamos aqui tratando disso, e esperando por este momento. Vamo-nos, pois, ao encontro do nosso rei.”

O príncipe achou estranhas as palavras do ancião, mas o pensamento logo deixou sua mente. Dali a instantes estavam todos no quarto do rei El’læ.

Tão logo chegaram, El’læ disse: “Eis que aqui me despeço de ti, filho meu, e de vós, fiéis amigos meus do Conselho.”

Dirigindo-se ao filho, pediu-lhe que se ajoelhasse junto à cama, e pousou a mão esquerda sobre a sua cabeça, dizendo: “Kalaras, dou-te agora um novo nome: Kal’læ, o Segundo Rei de Mezelis.” Lágrimas rolaram dos olhos de ambos, e El’læ continuou, “Nas tuas mãos entrego o meu povo, e te desejo todas as boas venturas deste mundo; que teu reinado seja ainda mais feliz para ti que este meu foi para mim, e que a honra e a justiça sejam tuas companheiras fiéis, sempre e em cada um de teus passos.”

Após uma breve pausa, levantou os olhos para os anciãos, e disse: “A vós, Mestres de Tradição, confio o conselho do Segundo Rei de Mezelis, e peço-vos que o auxiliem sempre em seu caminho. Tenho a certeza de que, daqui em diante, o reino será ainda melhor, melhor a cada dia.” Silenciou por um momento, e continuou, sorrindo: “Digo-vos que foi muito bom ter-vos ao meu lado todo esse tempo. Vou-me feliz, por ter vivido entre amigos tão fiéis, e uma vez mais desejo-vos felicidade sem limites.” Após mais uma pausa, disse ao filho: “Rei Kal’læ, quero segurar a mão do meu filho uma última vez antes de partir.”

Kal’læ inclinou-se e tomou a mão do pai. “Que descanses em paz, meu pai. Obrigado por tudo que por todos nós fizeste; e, antes de ires, fica com a certeza de que deixarás saudades.”

El’læ olhou para os anciãos. “Sede felizes, amigos meus. Obrigado por terdes participado de meus dias. Adeus.” E, olhando para o filho com um ar sereno, acrescentou: “Adeus, filho meu. Sê feliz todos os dias de tua vida.” A essas palavras, fechou os olhos e expirou, sorrindo.

O Segundo Rei e os Mestres de Tradição ficaram ainda ali por alguns instantes; aquele ainda ficou mais tempo e estes então saíram, para dar início aos preparativos para o funeral do Primeiro Rei de Mezelis.

El’læ foi pranteado por todos os seus súditos, e o luto por sua morte estendeu-se por todo um mês. Ao final do luto, reuniu-se o Conselho dos Mestres de Tradição, juntamente com o antes chamado príncipe Kalaras, e, no dia seguinte, em frente ao palácio, diante de todo o povo, ele foi coroado rei de Mezelis, com o novo nome de Kal’læ, o Segundo Rei, e unanimemente aclamado pelo povo.

“Mezelash, povo comigo coroado pelas Montanhas Majestosas! Hoje começamos uma nova era de nossas vidas”, disse ele. “Convosco desejo fazer de nosso reino um lugar ainda mais feliz, e desejo que os próximos tempos sejam tempos favoráveis a todos os nossos projetos. Lutar a vosso favor e ao vosso lado ser-me-á tanto ou mais importante que o ar que eu respiro, que a minha própria vida: sem respirar, não teria forças para lutar, e, se não lutasse por vós e ao vosso lado, respirar não teria sentido…” Uma onda de aplausos e vivas o interrompeu. Ele esperou um pouco, ergueu as mãos como quem pede calma, e prosseguiu: “Mas, antes de qualquer coisa, desejo fazer-vos uma proposta que, segundo penso, não recusareis. Meu pai, o amado rei El’læ, partiu, mas sua memória não nos deixou. E, para que sua lembrança continue conosco enquanto existirmos, que o reino de Mezelis receba seu nome e, daqui por diante, sejamos chamados reino de El’las!” A essas palavras, o povo explodiu em palmas, gritando: “Brilhe a luz sobre Kal’læ, nosso rei, rei de El’las!”

• • •

Cheguei, pois, ao Reino de El’las alguns anos depois da coroação do rei Kal’læ. Parei no cume das montanhas de Mezelis e olhei para baixo, admirando a simples mas bela cidade, com seus moradores ocupados andando por toda parte, com suas crianças brincando na praça, com seus anciãos conversando nos bancos de madeira negra. Vi os guardas em roupas solenes guardando os portões da cidade, instalados no único muro externo construído por mãos humanas que ali havia. Alegrei-me em meu íntimo por aquele povo, ao perceber sua determinação e sua força, que lhe permitiram crescer tanto e tão rápido.

Desci devagar a suave encosta, sorrindo sozinha, seguindo pela via pavimentada de pedras brancas que conduzia aos portões. Parei diante deles, admirando o brasão do Reino: uma coroa enfeitada envolvendo um reluzente diamante, sobre um fundo azul. Compridas bandeiras azuis e brancas tremulavam docemente no alto do muro, colocadas de três em três braças. Aproximei-me um pouco mais, e um dos guardas interpelou-me.

“Quem és, de onde és, e a que vens?”

“Quem sou? Ora, tenho vários nomes, um em cada lugar que visitei… mas, nesta região, chamam-me Sábia Aræn”, respondi. E, erguendo a mão esquerda, como sabia ser o costume do lugar, ajuntei: “Brilhe a luz sobre vós!”

Com a expressão de quem se lembra de alguém importante, os guardas imitaram-me, erguendo prontamente suas mãos e disseram em coro: “Brilhe sobre vós também a luz!” A seguir, o que estava à minha esquerda disse-me: “A que devemos a honra de tão feliz visita? Tenho certeza de que nosso rei Kal’læ muito se alegrará com vossa presença, Sábia Senhora Aræn! Ele sabe de vossa chegada?”

“Na verdade, não; e eu gostaria que, por ora, ele continuasse sem saber.” Diante do olhar intrigado dos guardas, continuei: “Será melhor assim, asseguro-vos. Se me permitis, gostaria de entrar e descansar um pouco. Quero ver de novo este lugar tão belo e enlevador, conversar com essa gente tão acolhedora, e depois dirigir-me-ei ao palácio de Kal’læ.”

“Se assim desejais, Sábia Aræn, assim seja feito.” E, gritando para dentro: “Abri os portões!”

A essas palavras, os gonzos rangeram baixo e as pesadas portas de madeira forte, vinda da distante Álgia Oriental, abriram-se de par em par diante de mim. Adiantei-me um ou dois passos, olhando para dentro e divisando bem longe o palácio, e disse: “É agora, povo El’las! Eis que o início de tua verdadeira vida finalmente chega!”

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Idharos — Prólogo

Notas:
  • Esta história é, de tudo que já escrevi, a que mais se desenvolveu; a idéia é contar fatos reais por meio de uma grande metáfora, cheia de metáforas menores, emolduradas numa ficção que tenta ser verossímil, apesar de improvável, se não impossível.
  • Já tenho alguns capítulos escritos, mas o centro da trama precisa ser profundamente revisto, de forma que somente aos poucos publicarei as continuações.


Muitos contam histórias, e muitos são os relatos de que já se ouviu falar; lendas de heróis e heroínas, salvamentos milagrosos e prodígios incontáveis, povos oprimidos que se libertaram e insurreições com esperança de justiça. Algumas dessas histórias narram coisas que de fato aconteceram, e outras, nem tanto; há as que sequer aconteceram, mas seus personagens e eventos existirão enquanto forem contadas. Há também aqueles que contam tais histórias pelo puro e simples prazer de contá-las, e há os que as contam com o fim de transmitir mensagens; há um, bastante conhecido, que diz não querer levar mensagem alguma em suas narrativas, mas fala apenas pelo prazer de ser um contador de histórias.

Não é o meu caso. Faço este relato com o fim de levar a quem lê-lo uma mensagem, ou várias mensagens, de acordo com quem ler. Essas mensagens são viandantes que esperam encontrar casas que lhes abram as portas e lhes permitam entrar — que haja muitas capazes disso. A mensagem destina-se ao proveito dos que lerem; quero que lhes agrade e lhes seja útil. Mas o prazer de contar histórias não está ausente desta minha: o escrivão de que me sirvo para levar minha mensagem em forma de história escreve por prazer, bem o sei, e por isso o escolhi: aproveita a ele, e muito, também o sei, transmitir meu relato. Dessa forma, agrado a ele inclusive, e atinjo meu intento.

Apresento-me: chamam-me por vários nomes em muitos lugares, mas, na história que vos apresento, conhecem-me como Sábia Aræn, conselheira do jovem rei Kal’læ. Narrarei o que for necessário e apresentarei apenas o que for relevante para o cumprimento do meu objetivo. Talvez omita detalhes que poderíeis considerar interessantes, ou mostre aspectos que podereis considerar supérfluos — de minha parte, entretanto, mostrarei apenas o que, a meu ver, tiver (ou puder ter) significado para quem tomar contato com estes breves pergaminhos.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Ictus — I

Notas:
  • Esta é a minha primeira tentativa de escrever ficção científica, de forma que peço a condescendência do caro leitor.
  • As unidades de medida (espaciais, temporais, ou quaisquer outras) usadas no texto são sempre as usadas na Terra (primeiro planeta da Federação a unificar seu sistema de medidas baseando-se em padrões confiáveis, depois adotado em todos os sistemas federados), a menos que haja especificação em contrário.

“Acho que vamos precisar usar o plano B, tenente”, disse o capitão, tentando, sem grande sucesso, esconder sua apreensão.

“Nós temos um plano B, capitão?”, perguntei eu, com afetada surpresa, mas ele nem se moveu.

É claro que não havia. Todos os planos de vôo de todos os cruzadores da Frota eram meticulosamente elaborados, sempre levando-se em conta todas as eventualidades possíveis, especialmente as mais, digamos, indesejáveis. Além disso, normalmente, eu não ousaria questionar o capitão Lucek; não apenas ele era tido como a personalidade mais difícil dentro de toda a Frota, mas também como o mais capaz dentre todos os oficiais do Exército Federado (corria o boato de que ele só não era ainda o Marechal-do-Espaço porque os generais não tolerariam a idéia de serem subordinados a alguém mais jovem que eles).

Mas questionei-o, assim mesmo; afinal, as vidas de centenas de pessoas, tanto dos tripulantes da Ictus quanto da Plataforma Astrid-2, estavam em jogo, e aquele não era o momento de querer manter as aparências.

A idéia um tanto ousada (para não qualificá-la de irresponsável, como certamente fariam os Marechais) de usarmos o subespaço como um “atalho” fora dele; e eu, como oficial de navegação da Ictus, mantive-me calada, apesar de ser meu dever lembrar-lhe dos riscos antes de executar a ordem. “Não é hora de continuar calada”, pensei, “especialmente porque foi meu o erro de cálculos que causou este incidente.”

“Nós temos um plano B, capitão?”, repeti, sabendo que o risco em que eu incorria era infinitamente menor que aquele do qual precisávamos escapar.

“Vou pensar em alguma coisa”, respondeu ele, sem me olhar. “Coloque toda a tripulação em alerta de combate, tenente, e explique nossa situação à Astrid-2.”

Tão logo dei-lhe as costas para ir cumprir a ordem, ele disse, “Diga aos operadores que nós ficaremos imensamente gratos se eles tiverem alguma idéia.”

• • •

A Ictus era um cruzador interestelar da nova classe DW-C, isto é, possuía, além dos típicos motores de deslocamento espacial que equipavam todas as naves da Frota, um motor de dobra e um de subespaço, antes conhecido como gerador de wormholes — que os tripulantes costumavam chamar de abridor —, bem como um sistema de escudos e armamentos projetados para batalhas em altitude orbital. Naquela viagem, entretanto, desempenhava, irregularmente, a função de um mero cargueiro.

Vínhamos de β Cygni para α Aciei, trazendo uma providencial “ajuda” para uma guerra de escala global que assolava, havia uma década terrestre, o terceiro planeta do sistema, α Aciei 3 — comumente chamado de Terra, apesar das controvérsias entre os membros do Conselho Astronômico da Via Láctea.

Ninguém do Alto Comando da Frota sabia do exato teor daquela missão — e muito menos suspeitavam de quem a solicitara. Evidentemente, não foi sem uma ponta de desconfiança dos Marechais que recebemos autorização para partir para uma região tão pacífica da Federação com um cruzador do porte da Ictus. Havia, ainda, um agravante: nosso “contratante” solicitou — ou, antes, exigiu — que chegássemos a α Aciei 3 dentro de seis meses terrestres, o que tornaria nossa viagem ainda mais irregular: percorrer 385 anos-luz em tão pouco tempo com um cruzador de guerra, fora de sua função. Mas todos esses “obstáculos” foram superados com uma boa e velha troca de favores — uma das poucas coisas que não mudaram na humanidade ao longo de tantos e tantos séculos.

O método, aliás, teria de ser repetido em α Aciei 3 — naves de guerra do tamanho da Ictus só muitíssimo raramente pousavam nos chamados “planetas brancos” (equivalentes, em escala galáctica, ao que uma pequena nação da Terra, chamada Suíça, fora nos tempos antigos); ao contrário, pelo procedimento padrão, nosso cruzador deveria ficar na estação orbital Astrid-2, e precisaríamos de justificativas verdadeiramente impressionantes para conseguirmos uma autorização para adentrar a atmosfera e pousar num planeta neutro com um cruzador de guerra.

Enfim, o “plano A” do capitão Lucek surgiu no princípio da viagem, apenas um mês após a nossa partida de β Cygni. Estávamos apreensivos, desejando que a Frota, compreensivelmente curiosa em relação aos nossos motivos, não nos monitorasse toda a viagem; assim, ele sugeriu, ou melhor, decidiu, que valeria a pena correr o risco de chamarmos muito mais atenção usando o ainda experimental motor de subespaço para reduzir drasticamente a duração da viagem, com a vantagem de, no seu entender, reduzirmos também o tempo durante o qual poderíamos ser “escutados” pela Frota.

Calada, pois, ignorei as inúmeras incertezas inerentes às viagens pelo subespaço, e abri um wormhole da nossa posição atual até a distorção espacial causada pela massa da Terra — procedimento complexo que eu já havia realizado com êxito inúmeras vezes nos simuladores da Frota, mas que nunca havia feito no universo real —, e terminei por cometer um grave erro, que agora poderia custar as vidas de centenas.

CONTINUA

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

“Quidquid latine dictum sit, altum videtur.”

Eis a justificativa do blog (ou deveria dizer “diário na internet”?), isto é, aproveitar-me das palavras para falar pelos cotovelos — ou pelos dedos, com o perdão do trocadilho desgastado e infame —, com a (talvez muito) ingênua esperança (ou pretensão) de dizer algo (aproveitável) aos (eventuais, ou improváveis?) leitores.

Sobre o que pretendo falar? Então: sempre me fascinaram a capacidade comunicativa do ser humano e, em particular, as diferentes línguas criadas ao longo do tempo para dar-lhe vazão e suprir-lhe a necessidade; e nunca deixei de olhar com curiosidade para como as idéias ganham conotações às vezes inesperadas apenas por mudarmos as seqüências de letras que as expressam, ao traduzirmos sentenças de uma para outra língua.

(Aliás, é interessante como a palavra “pretensão” ganhou uma conotação pejorativa, ao passo que seu verbo, “pretender”, seguiu inocente como sempre foi… — bom, pelo menos para mim é interessante.)

O que nos traz de volta ao título deste post — postagem?! — inaugural: “Quidquid latine dictum sit, altum videtur”. Para os que ainda não conheciam a piada, a frase, apesar de toda a sabedoria que aparenta encerrar por estar escrita em latim, não significa nada mais que “qualquer coisa dita em latim parece profunda”. Aliás, um exemplo intenso — digamos — do fenômeno foi dado pelo personagem Merovíngio no filme Matrix: Reloaded (os que fizerem questão de saber o que ele disse, façam por onde — eu não direi): “Eu amo o francês… especialmente para xingar: Nom de Dieu de putain de bordel de merde de saloperies de connards d'enculés de ta mère! Vêem? É como limpar a bunda com seda; eu adoro!”

(Que fique reforçado que não endosso a frase em francês: ela só está aqui como exemplo.)

Tudo isso afora as particularidades de cada língua, que, numas, permitem dizer coisas que, noutras, não é possível dizer, ou que não se pode expressar com a mesma elegância. Como diria Fernando Pessoa, no poema
[Algumas] Quadras ao gosto popular”:

“Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem.
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.”
Ou um exemplo clássico — infelizmente, não tão clássico para a maioria:
15 “Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?’ Respondeu ele: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta os meus cordeiros.’ 16 Perguntou-lhe outra vez: ‘Simão, filho de João, amas-me?’ Respondeu-lhe: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta os meus cordeiros.’ 17 Perguntou-lhe pela terceira vez: ‘Simão, filho de João, amas-me?’ Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: Amas-me?’, e respondeu-lhe: ‘Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta as minhas ovelhas.’” (Jo 21, 15ss)
Todavia, ao longo das inúmeras traduções por que passou o texto até chegar à nossa língua, perdeu-se um aspecto importante que se nota no grego:

15 Ότε ουν ηρίστησαν λέγει τω Σίμωνι Πέτρω ο Ιησούς· ‘Σϊμων Ιωνά, αγαπάς Με πλείον τούτων;’ Λέγει αυτώ, ‘ναι, Κύριε, Συ οίδας ότι φιλώ Σε.’ Λέγει Αυτώ, ‘βόσκε τα αρνία Μου.’ 16 Λέγει Αυτώ πάλιν δεύτερον· ‘Σίμων Ιωνά, αγαπάς Με;’ Λέγει αυτώ· ‘ναι, Κύριε, Συ οίδας ότι φιλώ Σε.’ Λέγει Αυτώ· ‘ποίμαινε τα πρόβατά Μου.’ 17 Λέγει Αυτώ το τρίτον· ‘Σίμων Ιωνά, φιλείς Με;’ Ελυπήθη ο Πέτρος ότι είπεν Αυτώ το τρίτον φιλείς Με;’, και είπεν αυτώ· ‘Κύριε, Συ πάντα οίδας, Συ γινώσκεις ότι φιλώ Σε.’ Λέγει αυτώ ο Ιησούς· ‘βόσκε τα πρόβατά Μου.’” (Ιωάν. 21:15-17)

Em vermelho, as falas de Jesus, e, em negrito, os verbos que, em português, nos vieram apenas como “amas”, perdendo muito do sentido original: “αγαπάς” /a.gha.PAS/ é a segunda pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “αγαπάω” /a.gha.PA.o/, que se refere ao amor incondicional por excelência — o ágape, de “αγάπη” /a.GHA.pi/ —, ao passo que “φιλείς” /fi.LIS/ é a segunda pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “φιλώ” /fi.LO/, que se refere ao amor de amigo, tipicamente condicionado a determinados fatores. Daí tire o leitor suas conclusões…

Para terminar, gostaria de agradecer aos que tiveram a paciência de ler até aqui (embora eu talvez esteja sendo pretensioso em achar que posso pôr a frase no plural), e dizer que este não é um blog sobre lingüística, porque, muito embora tal idéia me agrade, não me considero possuidor de conhecimento suficiente para ousar manter um blog sobre o assunto. Mas já o tinha deixado implícito no primeiro parágrafo: a idéia é escrever palavras potencialmente (!) úteis, em ficção ou não, em prosa ou não, ou seja como parecer-me melhor, no intento de que sejam boas a outras pessoas além de mim. (Eu ia escrever “alguém”, mas a palavra não transmitiria a minha idéia… tenho inveja dos gregos, para os quais “alguém” varia em gênero e número…)

Muito bem, meus “rascunhares” estão finalmente inaugurados. Até!

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